A Sangue Frio – Truman Capote

Publicado: 15/07/2009 em Jornalismo, Literatura
Tags:, , ,

Por Pedro Moraes

Relendo esse livro, percebi mais uma vez a riqueza da construção narrativa de Truman Capote, é uma leitura obrigatória.

asanguefrio2Bastaram quatro tiros, cordas e fita adesiva, para que Perry e Dick realizassem um dos assassinatos mais frios e “surpreendentes” da historia dos EUA e da literatura. Truman Capote descreve passo a passo como esses dois personagens que geram uma terceira personalidade, planejaram e mataram brutalmente a família Clutter. A narrativa de A Sangue Frio é espetacular, um verdadeiro incentivo a leitura. Dificilmente um leitor por mais inexperiente que seja irá largar esse clássico na estante.
Truman Capote ao longo da história dá uma aula de literatura e jornalismo, nesta obra que é considerada um marco da literatura, por ter inaugurado uma nova proposta o “romance de não ficção”. É um exemplo perfeito para a categoria de Jornalismo Literário. Apesar do tema forte, a forma de contar a história se assemelha à outro mito do estilo, Joseph Mitchell em O Segredo de Joy Gold.
A sangue Frio não é apenas um romance policial. O seu suspense é envolvente da mesma forma que os clássicos de Conan Doyle em “Sherlock Holmes” ou de Alan Poe em “Os Crimes da Rua Morgue”, porém com um diferencial que deixa o livro ainda mais empolgante. O enredo é real. Sabemos desde começo que estamos lendo a historia de uma família como outra qualquer que será executada friamente dentro de alguns minutos de leitura.
O livro conta a história de um crime que abalou os EUA em 1959, numa cidadezinha do estado Kansas. A família Clutter, composta por quatro membros foi executada barbaramente numa pacata na cidadezinha chamada Holcomb. Truman Capote passou um ano na cidade para saber tudo sobre o caso, entrevistou amigos, parentes, vizinhos, desconhecidos e policiais. Depois das investigações e com os dois personagens presos, confirmou as informações com os próprios assassinos.

Diferente dos livros policiais o que chama a atenção do livro não é o assassinato, e sim o perfil psicológico que o escritor consegue traçar. Capote mostra os dois lados da moeda, o brutal e o humano. Ele humaniza de tal forma os assassinos que o livro acaba entrando em questões complexas na sociedade americana, como a pena de morte. A descrição realizada de Perry é tão sublime que em muitos momentos o leitor sente comoção ao ponto de desejar defender o personagem de seu cruel destino.
Perry é um típico sujeito pregado pelo francês Jacques Rousseau, o sujeito nasce puro, porém, a sociedade o corrompe, construindo uma personalidade má. O personagem é um romântico, gosta da música e dos versos, porém sofreu diversos traumas desde que nasceu. Presenciou a morte de sua mãe alcoólatra, que se afogou no seu próprio vômito e traia seu pai com diversos homens. A irmã se suicidou, e o pai traído era um garimpeiro desiludido.
Já Dick é um tradicional malandro, quando sua personalidade explosiva entrava em cena ele gostava de se divertir ao máximo, furtos, vandalismo e estupro não eram problemas para ele. Muitos dizem que se os dois estivessem sozinhos nada disto aconteceria, mas os dois unidos era uma combinação perfeita ao ponto de planejar e cometer o delito.
Perry Smith e Dick Hickcock se conheceram na prisão. Já para serem libertos, eles conversam com Flayd, outro detento, e descobrem que supostamente existia um milionário chamado Clutter que teria um imenso cofre dentro de casa. Os dois decidem então infligir mais uma vez a lei e seguirem viagem em direção a casa dos Clutters.
Chegando na fazenda,os dois assassinos acordaram o Sr. Clutter, logo em seguida o filho, mãe e filha. Procuraram o tesouro imaginário exaltivamente, quando viram que não existia, começou o terror. Amarraram o pai no alçapão, o filho no outro cômodo, a mãe e a filha em quartos separados. Todos amordaçados e amarrados com cordas de nylon com nó bem forte do jeito que amarra boi (experiência de Smith, pois seus pais eram vaqueiros). Sr.Clutter até que tentou pagá-los com cheque, mas Smith teve mais uma das suas insanidades mentais e Dick com seu temperamento explosivo não suportou mais essa aflição, a terceira personalidade entrou em cena, e a sangue frio todos foram mortos.
Ao saírem da fazenda levaram apenas um binóculo, um rádio e 40 dólares. Fugiram para o México, numa aventura sonhada por Perry, furtaram carros e passaram cheques sem fundo e transaram com prostitutas. Viram que o México não rendeu o que esperavam e tiveram a loucura de voltar para Kansas. Voltaram pedindo carona pelo caminho e ainda pensaram em matar algum caroneiro para roubar o carro, se alimentavam pelo caminho através das suas malandragens.
Só que Dick não esperava a traição do companheiro, Flayd, o mesmo que informou sobre o cofre ilusório foi quem testemunhou contra eles no tribunal. Flayd ao ouvir pelo rádio a recompensa pelas cabeças de Dick e Smith, referente ao assassinato contou o que sabia à polícia.
Ao voltar para os Estados Unidos foram pegos pela patrulha policial, que acusaram de roubo de carro e estelionatário. Um mero pretexto para começar os depoimentos principais. Com um forte interrogatório, a policia mostrou para eles as provas do crime, pois eles não lembraram da bagagem deles dentro do carro, onde continha os sapatos do dia do crime e restos da corda.
Depois de confessarem o crime, só cinco anos depois a suprema corte dos EUA confirmou a sentença, sendo confirmado o enforcamento dos bandidos, no dia 14 de abril de 1965, quando foram executados a sangue frio. Junto das outras dezenove testemunhas, Truman Capote assistiu ao enforcamento de Richard Hickock. A segunda, o autor não conseguiu assistir.
“Truman Capote levou seis anos para escrever A sangue frio. Dizia que não poderia terminá-lo sem saber o destino dos acusados. O final do livro – e das vidas de Richard Hickock e Perry Smith – seriam momentos marcantes também em sua vida (ele conta que foi tão difícil escrever as últimas seis ou sete páginas que sua mão ficou paralisada. Ele escrevia à mão). Capote não poderia assistir ao enforcamento dos dois, mas Hickock e Smith o indicaram como uma das três testemunhas a que tinham direto. Truman Capote foi o confidente dos dois ao longo dos anos de cárcere. Na véspera da execução, pediram para estar com ele pela última vez. Capote desmontou”. Pág. 427

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s