Estamira

Publicado: 15/07/2009 em Cinema, Jornalismo
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Por Pedro Moraes

“A minha missão, além d’eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não”. (Estamira)

Estamira é um documentário brasileiro que marca a estréia do fotógrafo Marcos Prado como diretor cinematográfico. Realizado em 2004, o filme retrata a vida de Estamira, uma senhora com problemas mentais, que trabalha no Aterro Metropolitano de Gramacho. A personagem é fantástica e possui uma forma única e enigmática de analisar o mundo, misturando palavras sábias e reflexivas com um tom alucinado e psicótico.

O documentário consegue oferecer o poder da fala, a quem supostamente não tinha e a personagem não desperdiça essa oportunidade. Estamira apesar de seu visível desequilíbrio, contesta e crítica instituições como a religião, capitalismo, educação, sistema de saúde e família. O discurso é voraz, é um desabafo de quem sofreu e está com o grito tolhido por muitos anos.

Dificilmente o espectador que tiver contato com essa obra, vai sair da exibição da mesma forma que entrou, pois Estamira não é apenas uma personagem, ela é um estado de espírito, uma expressão da revolta contra uma sociedade sem inocentes, cheia de “trocadilos”. Como define a personagem: “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira. (…) A criação toda é abstrata. O espaço inteiro é abstrato. A água é abstrato. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato. Estamira também é abstrato”.

Estamira sempre teve uma vida dura. Com nove anos ela sofreu com o assédio sexual do avô, que também molestava a sua mãe, aos doze anos o mesmo a deixou em um prostíbulo, sendo obrigada a se prostituir por muito tempo. Neste local, Estamira conheceu o pai do primeiro filho, que gostou dela e resolveu retirá-la do ambiente que estava para juntos tocarem a vida. Porém, a felicidade não reinou por muito tempo, o marido de Estamira tinha várias amantes e o casamento não deu certo. A personagem ainda se casou outra vez, com um imigrante italiano, contudo, ele pecou com a mesma moeda, e as inúmeras traições geraram brigas violentas deixando a personagem apenas com os filhos.

O filme realizado em preto e branco e colorido utiliza os depoimentos de familiares para contar a vida da personagem. São momentos tocantes, é muito interessante ter contanto com o forte laço afetivo dos filhos para com ela, em especial a Maria Rita, que foi levada pelo irmão mais velho para ser adotada por uma outra família. A garota apesar de ter vivido bem com a segunda mãe, se mostra triste e de certa forma desprezada em seus depoimentos, por ter convido longe de Estamira. Percebemos que apesar dos problemas que a mãe tem, Maria Rita preferia ter ficado com ela, superando todas as dificuldades juntas.

Carolina, a outra filha de Estamira é a principal testemunha nos depoimentos sobre a história da mãe. De acordo com ela, sua avó por parte de mãe também tinha problemas mentais, e um dos principais ressentimentos que Estamira tinha, seria ter deixado, sob a influencia do ex-marido, a mãe no famigerado Hospital Psiquiátrico Pedro II. Carolina afirma que o erro que a mãe cometeu ela não pretende repetir, pois ela acompanha a dor que Estamira sente ao se lembrar disso e não quer essa sensação para ela.

Logo no começo do filme, Marcos Prado deixa algo bastante evidente, o que vamos assistir não é algo comum. Ainda nos créditos, inicia uma trilha psicodélica, mesclando na mesma cadência um som percussivo que se repete exaustivamente ao lado do entoar de uma única nota. Essa música composta por Décio Rocha enriquece a sequência de imagens realizadas em preto e branco, com uma textura do antigo formato super oito. Enquanto isso a câmera mostra lentamente o caminho para a “casa” de Estamira, focando alguns detalhes do ambiente que refletem a profissão e estilo de vida da personagem.  Essa sequência realizada com maestria é de grande importância para introduzir o espectador no mundo de Estamira.

Quando saímos da casa da personagem a câmera segue a Estamira até seu ambiente de trabalho o aterro metropolitano de gramacho, nessa parte os planos se alternam entre abertos e fechados. Nessa sequência, o plano aberto é usado para mostrar a trajetória dela até o local, assim como expor as primeiras cenas do “lixão”. Já o fechado realça as marcas do rosto das pessoas que trabalham no local. Elas expressam cansaço, dor e sofrimento. Acompanhando essas imagens o som ganha mais um elemento, um vocal quase desgovernado, que aumenta o ar de estranheza. A sonoridade flerta entre o mundo erudito, tonal, com alguns sons ligados ao oriente.

Ao retratar esse ambiente, Prado faz isso com perfeição, movimentos panorâmicos e os planos abertos mostram as paredes quase infinitas de lixo, são muralhas do desperdício, do escombro e da insensatez governamental que não disponibiliza de políticas ambientais para cuidar do que joga fora. As cenas são chocantes, esse enquadramento do real, traz o espectador para aquele ambiente e escancara a disputa entre urubus e homens que travam uma batalha no lixão para sobreviver. Neste ambiente hostil, que até cadáveres são encontrados, Estamira e tantos outros trabalham em condições desumanas, inalando o gás metano que é um resultado da decomposição do lixo e sem a devida segurança eles tem o contato com os detritos que ali se encontram.

A bem realizada captura do som ambiente é fundamental para que esse filme tenha o impacto que conseguiu produzir. O trabalho de Leandro Lima consegue realçar os movimentos e transmitir sensações, pois todos os detalhes são capturados na medida certa, seja no barulho das moscas, o fogo do metano, ventos, trovões, motor das caçambas de lixo ou o bater das asas do urubu, toda essa sonoridade nos ambienta cada vez mais com esse mundo.

Nos primeiros diálogos do filme, já aparece um conflito que é recorrente em todo o documentário. A narrativa flerta com o submundo de Estamira, que duela entre a personagem e a figura de Deus. Muito nervosa ela desabafa, “que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!”. De acordo com a filha ela era uma pessoa religiosa até ter sido violentada sexualmente em diversos momentos da vida. A personagem então criou um desalento e culpa Deus pelas infelicidades do mundo e fica enfurecida quando o nome do Criador é citado.

Um ponto de grande destaque nessa obra é uma metáfora que o diretor faz desta relação. O diretor mostra ao decorrer do filme, diversas cenas externas em preto e branco, revelando Estamira duelando com a natureza, a razão e loucura. Neste ambiente as sombras são ressaltadas e imagens quase que apocalípticas são produzidas, com ventos fortes, raios, trovões ou um mar revolto em confronto com as fortes palavras da personagem e seu corpo. A câmera é sempre bem posicionada, ela fica no centro do conflito, oferecendo mais dramaticidade e realidade para as imagens, que mostram o vento arrastando ferozmente o lixo. Nesses momentos de conflito com o “pai astral”, como a personagem diz, acontece nas cenas uma guerra simbólica de caráter poético contra Deus.

Grande parte das cenas desse filme foram filmadas com a luz natural, já que o principal ambiente do documentário é o aterro sanitário. Prado como bom fotógrafo, realiza uma boa exposição, realçando os tons de pele dos personagens, assim como capturando os contrastes com perfeição. Ele gosta desse efeito, e assistimos os urubus pretos rasgando os plásticos brancos, assim como as chamas do metano se destacando com a escuridão da noite. As imagens desse filme são muito bem executadas, em um momento, Prado filma o sol e fecha o diafragma da lente ao máximo dando um efeito muito belo, deixando o céu negro com uma luz no centro que dissipa raios na escuridão. O contra-luz também se destaca em várias cenas, uma das mais bem realizadas mostra em preto e branco a silhueta do corpo da personagem em contraponto com a luminosidade do céu.

Retratar a loucura é algo complicado e o filme de Marcos Prado percorre sobre essa linha tênue entre o excesso. Em alguns momentos do filme os devaneios de Estamira são mostrados com muita freqüência e muitas vezes sem necessidade. Contextualizar que Estamira sofre de alguns problemas é essencial, mas o filme tem partes em que se resumem os ataques psicóticos escancarados ao um público que não deveria ter tanto acesso a algo tão intimo. Parece que o diretor se encantou pela personagem, mas quem não se encantaria diante de uma Estamira? Apesar disso, o filme não perde seu brilho e se concretiza como uma bela obra poética de extrema valia, que veio a acrescentar para cinema brasileiro.

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