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Por Pedro Moraes

Em uma sala lotada, as luzes se abaixavam e uma voz suave e cadenciada anunciava: “Nesse horário está entrando no ar o sistema de som do Cine Lapão, hoje, vocês vão assistir o filme Paixão de um Homem, estrelado pelo cantor Waldick Soriano”.  Desta forma, Hélio Gomes, abria as seções do cinema da cidade, sem saber que estava entrando para história do município por ter propiciado para tantos o contato com a sétima arte, se tornando uma referência cultural viva na microrregião de Irecê.

Hélio Gomes nasceu em Canoão de Ibititá em 1938. Com 19 anos a irmã que morava em Brasília resolveu voltar para o semiárido e morar Lapão, foi então que Hélio resolveu acompanha-la com o objetivo de abrir um armarinho. O comércio durou alguns anos, até que comprou um bar do irmão e mudou de ramo. Porém, o ambiente não era o que ele gostaria de ficar. Relembrando a época, Hélio conta que fechou o bar e tentou uma nova profissão vendendo tecidos e rádios para os comerciantes locais. “Tentei ser vendedor mas esse serviço ainda não contemplava minha opção de vida, larguei tudo e entrei no ramo de fotografia. Fazia fotos de formaturas, casamentos e solenidades. Trabalhei uns três anos com uma máquina Yashica, até que um amigo de Piritiba, chamado Marotinho, arrendou um clube e fundou um cinema por lá”.

Nasce o cinema na cidade: O cinema do amigo despertou uma nova paixão para Hélio que rapidamente pegou com Marotinho os macetes da profissão e fundou em 68 no salão da Sociedade Cultural de Lapão, instituição que na época era o presidente, o Cine Columbia. “O espaço cabia 50 pessoas, a cidade não tinha energia elétrica, o projetor e as lâmpadas eram alimentadas por um motor a óleo diesel, mas dava para fazer uma seção por dia. Quem mais frequentavam eram as famílias e os casais de namorados, que gostavam de assistir filmes românticos e aproveitar o escurinho do cinema,” diz Hélio Gomes. Com o tempo, Hélio precisava de mais espaço, foi então que teve a ideia de mudar a sala para outro ambiente. O cine Columbia ficou em uma garagem ao lado do antigo bar e por quatro anos, apresentou grandes clássicos do cinema nacional, com atores consagrados como Mazzaropi, Tony Viana, Oscarito e Grande Otelo.

Sucesso de público: Em cinco de fevereiro de 75, o Cine Columbia se transformou em Cine Lapão e mudou para um novo prédio com capacidade para 250 pessoas. A reestreia do cinema lapoense foi marcada pelo filme Elvis é Assim. De acordo com Hélio Gomes, “a seção estava lotada, Elvis Presley estava no auge, ele era um sucesso. Nesse tempo, quando o filme era bom fazíamos até três seções, com o ingresso custando aproximadamente dois cruzeiros. O cinema deu lucro, foi onde fiz meu pé de meia,” relembra Hélio.

O cine Lapão passava películas de variados estilos, românticos, épicos, bíblicos, de terror e os famosos e populares filmes de “Bang-bang”(Western) e artes marciais. Hélio comenta que Love Story, Tarzan, Digo como te Amo, O Marginal e os Dois Gladiadores foram os filmes de maior bilheteria, porém não esquece de ressaltar que o público adorava as chanchadas com Oscarito, Grande Otelo e Mazzaropi. “O cinema nacional dava muito público. Lembro que filmes como Chumbo Quente com os cantores Léo Canhoto e Robertinho, Menino da Porteira com Sérgio Reis e Roberto Carlos em ritmo de Aventura eram garantia de sala lotada.”

Atualmente na microrregião de Irecê, não encontramos cinemas. Mas até começo da década de 80 o sucesso era evidente. Hélio era o responsável por distribuir os filmes nas cidades vizinhas, ele alugava as películas em Salvador, por 150 a 200 cruzeiros e cobrava para cada cinema da região de 20 a 50 cruzeiros por exibição. O sucesso era tamanho que o ator e diretor Tony Vieira passou por vários municípios, onde Hélio distribuía as películas, como em Jussara, Barra do Mendes, Cafarnaum, Uibaí e Presidente Dutra, para apresentar os filmes e criar um vínculo maior com o público.

Fim do Cinema: Após treze anos de sucesso no novo prédio, o Cine Lapão e diversos outros cinemas ganharam um adversário forte, o videocassete, uma tecnologia que gerou uma crise quase que irreversível para vários estabelecimentos do setor. Com a popularização do aparelho, os filmes saiam de cartaz nos cinemas e em poucos meses já estavam disponíveis para locação.  Além disso, as boates e casas noturnas nas cidades do interior se expandiam e o público dos cinemas ficava cada vez menor. “Todas as salas da região estavam sentindo na pele, tinha também um cinema em Barra do Mendes, esse resistiu menos e fechei. Várias distribuidoras de Salvador que nos passavam filmes em 16mm também não resistiram e estava ficando difícil até encontrar filmes nessa bitola”.

As salas começaram a ficar vazias, e não compensava mais alugar um rolo de filme para passar. O único gênero que ainda atraia grandes bilheterias eram os filmes pornôs. Foi então que Hélio decidiu investir em filmes mais caros e realizar intensas campanhas publicitárias. Porém, a estratégia não obteve sucesso. “Vinha tentando de todas as formas. Aluguei um filme caro, chamado Engraçadinha, esperava levantar a moral do cinema. Divulguei em jornais, no sistema de som, coloquei cartazes na cidade e infelizmente foi uma decepção. Só foram 13 pessoas. Fiquei tão injuriado com isso, porque era um filme romântico e histórico, com uma história muito boa e não deu público, mas quando passava filme pornô era casa cheia.  Gostava de projetar filmes instrutivos, que passassem uma mensagem, não era só lucro, tinha um cinema porque achava que estava evoluindo a cidade e ajudando a engrandecer a cultura local. Então com o fracasso deste filme encerrei a atividade do Cine Lapão em 13 de setembro de 88 e não tentei mais voltar com ele,” desabafa.

Com a decepção, ele saiu de Lapão e foi morar em Salvador. Chegando na cidade, abriu uma mercearia mas logo voltou para área, se tornando um dos gerentes da Orient Cinemas, atualmente uma das maiores distribuidoras de filmes do estado.  Hélio gerenciou as salas do Brotas Center, Center lapa, Cine Itaigara, Tamoio, Excelsior, Cine tupi e Cine Jandaia de Salvador. Anos mais tarde, voltou para Lapão, onde mora com sua esposa Evanilde, com quem é casado há 43 anos, ao lado do antigo cinema. “Sinto muita falta daquela época, além de ser apaixonado por cinema, meu desenvolvimento financeiro e cultural foi propiciado por ele. Não tenho como não sentir a falta. Quando entro naquele salão sinto muitas saudades de uma época que me trouxe felicidades, penso em reformar esse local e criar um espaço cultural, onde possa alugar para festas e fazer umas seções de filmes. Tem muitos jovens na cidade com ideais de teatro e outras artes e que não tem um ponto de sustentação, esse salão vai ser esse espaço” promete Hélio Gomes.


Assim como em uma projeção cinematográfica, vamos voltar no tempo por 30 anos. Mas nesse filme imaginário, não teremos superproduções norte-americanas e nem o rebuscamento intelectual do cinema europeu, e sim, curtas-metragens realizados com garra e coragem, no semiárido baiano, dirigidos por um “fazedor de filmes”, o soteropolitano de alma sertaneja: Sandoval Dourado.

Filho da artesã de Irecê, Constança, e do bancário aposentado de Canarana, Sinobelino, Sandoval, nasceu em 79. Quando pequeno, passou os seis primeiros anos na capital baiana, até começar uma vida quase nômade, migrando por várias cidades, como Salvador, Itaberaba, Irecê e Andaraí.

Formado em Design pela UNIFACS, sempre gostou de cinema, mas o despertar para sétima arte aconteceu quando morava em Andaraí. “Estavam rodando um filme do lado de minha casa, Tuna Espinheira gravava o longa-metragem Cascalho, então dei para eles todo suporte de informática, montando a rede e daí fui até figurante. Quando olhei aquela iluminação, os profissionais, e toda aquela megaprodução me apaixonei, foi muito interessante”.

Mesmo com o fascínio, o jovem design ficou sem ter contato com a prática cinematográfica por mais três anos, por falta de equipamento. “Foi então que comecei trabalhar com um colega, que foi meu monitor na faculdade. Ele tinha uma produtora de vídeo que fazia filmagens para casamentos, festas e formatura e fui fazer sites para a empresa. Na época, fiquei sabendo de um festival de vídeo da TVE e fiz uma proposta para realizar um curta em Mato Verde de Canarana. Foi dessa experiência que surgiu meu primeiro filme, Amuleto”, conta Sandoval.

O curta-metragem Amuleto nasceu vencedor e conquistou no festival da TVE o prêmio de melhor direção e em Santa Maria no Rio Grande do Sul, o prêmio de melhor vídeo na categoria de até 2 minutos. “Não sei se por competência ou sorte, mas tivemos um ótimo resultado. Foi então que pensei, sem experiência e pouca produção ganhamos de pessoas experientes. Naquele momento que percebi que fazer filmes era o que queria para fazer por toda minha vida”. Amuleto conta a historia de um vaqueiro em 90 segundos, evidenciando seu ciclo de vida, a história gira em torno de um cavalinho que ele guarda como amuleto desde criança.

Em 2007, Sandoval deixou Salvador para morar em Irecê, ao receber um convite de um empresário local, para abrir uma empresa, foi então que surgiu a “Sertão Filmes”. A produtora começou fazendo coisas simples, como filmar festividades, porém de acordo com Sandoval, “essa era só uma forma de ganhar dinheiro, meu intuito mesmo era fazer filmes. Tentei no mesmo ano um curta sobre as lendas do sertão, as famosas livusias. Porém, depois de quase pronto, percebi que ficou muito ruim e fiz questão de apagar tudo”.

“Quando voltei para Irecê as pessoas diziam, você é maluco? Vai sair de uma capital para ir morar no interior e fazer cinema? Mas tem que deixar algum maluco mesmo fazer essas coisas, se não, quem vai fazer? Quero plantar alguma coisa e deixar algo de útil, não adianta passar a vida toda só trabalhando para fazer a feira e morrer fazendo isso, não pretendo ser famoso, mas quero ser reconhecido pelo que faço”, enfatiza Sandoval.

PATUÁ No ano seguinte, a produtora estava com os equipamentos parados, o mercado não estava em uma época boa, mas das dificuldades surgiu a ideia de filmar mais um curta, Patuá. Sandoval convidou parentes e amigos e começaram o novo trabalho. “Começamos a nos reunir, até que minha tia disse para conversar com Sólon Barretto, que ele poderia me ajudar, a principio, relutei. Afinal, não tinha dinheiro para pagar atores, mas para minha surpresa ele me deu o maior apoio e disse: o que você precisar para o elenco pode contar comigo”.

Cena do Filme Patuá

Com a parceria firmada, iniciaram as gravações. As filmagens aconteceram no mesmo local de Amuleto, em Canarana, após quatro dias de muito trabalho, as cenas estavam captadas. Baseado em fatos reais, o filme narra o drama de um sertanejo, onde o pai vai para outra cidade em busca de uma vida melhor, deixando a esposa e dois filhos. Passando por diversas privações a mãe dos garotos conhece um pescador e começa um novo relacionamento. Patuá é um filme bem executado, em todos aspectos, bela fotografia, interpretação, trilha, roteiro e direção. O curta tem um final intrigante, deixando no ar, para o apreciador, diversas possibilidades de conclusão da obra. “O final é trágico. Porém, nem eu mesmo sei o motivo, o final da história é surreal, deixei ele aberto e subjetivo de propósito”.

Patuá que estreou no auditório do colégio modelo em Irecê, ganhou rapidamente o estado e mundo, sendo exibido em vários locais, como, Jacobina e Xique-Xique, Belo Horizonte, Fórum de Cineclubes de Lençóis, Festival Arraial Cinefest de Porto Seguro, Sala Walter da Silveira em Salvador e Rotterdam na Holanda.

“Fiquei sabendo que tinha um festival de filmes independentes e mandei para o “Câmera Mundo” em Rotterdam, mas encaminhamos o vídeo sem pretensões, acreditava que nem ia ser exibido. Fomos selecionados e fui com Sólon para Holanda, o pessoal gostou bastante e mesmo concorrendo com 120 filmes, ganhamos um dos prêmios mais importantes o de “Incentivo Câmera Mundo”, que ele dão ao diretor ou grupo que mesmo com baixo custo conseguiram finalizar o melhor filme. Quando anunciaram os vencedores, não acreditei, fiquei emocionado, pois nunca imaginaria que iríamos ganhar”.

Outro filme do diretor é o curta “Rodagem”, resultado de uma oficina realizada em um distrito de Lapão-BA, de mesmo nome que o filme, onde foram selecionadas pessoas da comunidade interessadas no trabalho. Após as aulas, cada um cumpriu uma função diferente e o resultado foi valoroso. “Senti um compromisso inigualável, das equipes que trabalhei, ela foi a melhor. Não acreditava que iríamos fazer o que conseguimos, deixei tudo na mão deles só fiz a direção. Conseguir plantar uma semente entre eles, a equipe que fez o filme já está filmando outro curta. Espero que daqui a cinco, dez anos muitas pessoas estejam produzindo, esse é meu sonho. Voltei para Irecê não só para produzir cinema, quero incentivar, plantar, para que diversos grupos façam filmes e transformem nossa região em uma referência na área”.

“A fruta e fruteira” é o mais recente curta premiado do diretor. O filme realizado a partir de um convite feito pela escola Edimaster, teve como objetivo concorrer ao festival da Rede Pitágoras em Belo Horizonte. O resultado foi positivo e foi indicado para cinco categorias(trilha, figurino, fotografia, ator e atriz), sendo premiado como melhor fotografia(do próprio Sandoval) e melhor atriz com Marina Andrade.

Influenciado pelos filmes nacionais que trabalham com a temática do sertanejo, Sandoval diz fazer filmes para o povo e não apenas para intelectuais. “Tento fazer vídeos agradáveis, sempre prezando pela técnica, a fotografia mesmo gosto de deixar sempre redondinha”. Atualmente, Sandoval que é assessor da prefeitura de Irecê, está trabalhando em mais um filme: “Minha Vida Não Cabe Em um Outdoor”.

Pedro Moraes

Por Pedro Moraes

“A minha missão, além d’eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não”. (Estamira)

Estamira é um documentário brasileiro que marca a estréia do fotógrafo Marcos Prado como diretor cinematográfico. Realizado em 2004, o filme retrata a vida de Estamira, uma senhora com problemas mentais, que trabalha no Aterro Metropolitano de Gramacho. A personagem é fantástica e possui uma forma única e enigmática de analisar o mundo, misturando palavras sábias e reflexivas com um tom alucinado e psicótico.

O documentário consegue oferecer o poder da fala, a quem supostamente não tinha e a personagem não desperdiça essa oportunidade. Estamira apesar de seu visível desequilíbrio, contesta e crítica instituições como a religião, capitalismo, educação, sistema de saúde e família. O discurso é voraz, é um desabafo de quem sofreu e está com o grito tolhido por muitos anos.

Dificilmente o espectador que tiver contato com essa obra, vai sair da exibição da mesma forma que entrou, pois Estamira não é apenas uma personagem, ela é um estado de espírito, uma expressão da revolta contra uma sociedade sem inocentes, cheia de “trocadilos”. Como define a personagem: “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira. (…) A criação toda é abstrata. O espaço inteiro é abstrato. A água é abstrato. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato. Estamira também é abstrato”.

Estamira sempre teve uma vida dura. Com nove anos ela sofreu com o assédio sexual do avô, que também molestava a sua mãe, aos doze anos o mesmo a deixou em um prostíbulo, sendo obrigada a se prostituir por muito tempo. Neste local, Estamira conheceu o pai do primeiro filho, que gostou dela e resolveu retirá-la do ambiente que estava para juntos tocarem a vida. Porém, a felicidade não reinou por muito tempo, o marido de Estamira tinha várias amantes e o casamento não deu certo. A personagem ainda se casou outra vez, com um imigrante italiano, contudo, ele pecou com a mesma moeda, e as inúmeras traições geraram brigas violentas deixando a personagem apenas com os filhos.

O filme realizado em preto e branco e colorido utiliza os depoimentos de familiares para contar a vida da personagem. São momentos tocantes, é muito interessante ter contanto com o forte laço afetivo dos filhos para com ela, em especial a Maria Rita, que foi levada pelo irmão mais velho para ser adotada por uma outra família. A garota apesar de ter vivido bem com a segunda mãe, se mostra triste e de certa forma desprezada em seus depoimentos, por ter convido longe de Estamira. Percebemos que apesar dos problemas que a mãe tem, Maria Rita preferia ter ficado com ela, superando todas as dificuldades juntas.

Carolina, a outra filha de Estamira é a principal testemunha nos depoimentos sobre a história da mãe. De acordo com ela, sua avó por parte de mãe também tinha problemas mentais, e um dos principais ressentimentos que Estamira tinha, seria ter deixado, sob a influencia do ex-marido, a mãe no famigerado Hospital Psiquiátrico Pedro II. Carolina afirma que o erro que a mãe cometeu ela não pretende repetir, pois ela acompanha a dor que Estamira sente ao se lembrar disso e não quer essa sensação para ela.

Logo no começo do filme, Marcos Prado deixa algo bastante evidente, o que vamos assistir não é algo comum. Ainda nos créditos, inicia uma trilha psicodélica, mesclando na mesma cadência um som percussivo que se repete exaustivamente ao lado do entoar de uma única nota. Essa música composta por Décio Rocha enriquece a sequência de imagens realizadas em preto e branco, com uma textura do antigo formato super oito. Enquanto isso a câmera mostra lentamente o caminho para a “casa” de Estamira, focando alguns detalhes do ambiente que refletem a profissão e estilo de vida da personagem.  Essa sequência realizada com maestria é de grande importância para introduzir o espectador no mundo de Estamira.

Quando saímos da casa da personagem a câmera segue a Estamira até seu ambiente de trabalho o aterro metropolitano de gramacho, nessa parte os planos se alternam entre abertos e fechados. Nessa sequência, o plano aberto é usado para mostrar a trajetória dela até o local, assim como expor as primeiras cenas do “lixão”. Já o fechado realça as marcas do rosto das pessoas que trabalham no local. Elas expressam cansaço, dor e sofrimento. Acompanhando essas imagens o som ganha mais um elemento, um vocal quase desgovernado, que aumenta o ar de estranheza. A sonoridade flerta entre o mundo erudito, tonal, com alguns sons ligados ao oriente.

Ao retratar esse ambiente, Prado faz isso com perfeição, movimentos panorâmicos e os planos abertos mostram as paredes quase infinitas de lixo, são muralhas do desperdício, do escombro e da insensatez governamental que não disponibiliza de políticas ambientais para cuidar do que joga fora. As cenas são chocantes, esse enquadramento do real, traz o espectador para aquele ambiente e escancara a disputa entre urubus e homens que travam uma batalha no lixão para sobreviver. Neste ambiente hostil, que até cadáveres são encontrados, Estamira e tantos outros trabalham em condições desumanas, inalando o gás metano que é um resultado da decomposição do lixo e sem a devida segurança eles tem o contato com os detritos que ali se encontram.

A bem realizada captura do som ambiente é fundamental para que esse filme tenha o impacto que conseguiu produzir. O trabalho de Leandro Lima consegue realçar os movimentos e transmitir sensações, pois todos os detalhes são capturados na medida certa, seja no barulho das moscas, o fogo do metano, ventos, trovões, motor das caçambas de lixo ou o bater das asas do urubu, toda essa sonoridade nos ambienta cada vez mais com esse mundo.

Nos primeiros diálogos do filme, já aparece um conflito que é recorrente em todo o documentário. A narrativa flerta com o submundo de Estamira, que duela entre a personagem e a figura de Deus. Muito nervosa ela desabafa, “que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!”. De acordo com a filha ela era uma pessoa religiosa até ter sido violentada sexualmente em diversos momentos da vida. A personagem então criou um desalento e culpa Deus pelas infelicidades do mundo e fica enfurecida quando o nome do Criador é citado.

Um ponto de grande destaque nessa obra é uma metáfora que o diretor faz desta relação. O diretor mostra ao decorrer do filme, diversas cenas externas em preto e branco, revelando Estamira duelando com a natureza, a razão e loucura. Neste ambiente as sombras são ressaltadas e imagens quase que apocalípticas são produzidas, com ventos fortes, raios, trovões ou um mar revolto em confronto com as fortes palavras da personagem e seu corpo. A câmera é sempre bem posicionada, ela fica no centro do conflito, oferecendo mais dramaticidade e realidade para as imagens, que mostram o vento arrastando ferozmente o lixo. Nesses momentos de conflito com o “pai astral”, como a personagem diz, acontece nas cenas uma guerra simbólica de caráter poético contra Deus.

Grande parte das cenas desse filme foram filmadas com a luz natural, já que o principal ambiente do documentário é o aterro sanitário. Prado como bom fotógrafo, realiza uma boa exposição, realçando os tons de pele dos personagens, assim como capturando os contrastes com perfeição. Ele gosta desse efeito, e assistimos os urubus pretos rasgando os plásticos brancos, assim como as chamas do metano se destacando com a escuridão da noite. As imagens desse filme são muito bem executadas, em um momento, Prado filma o sol e fecha o diafragma da lente ao máximo dando um efeito muito belo, deixando o céu negro com uma luz no centro que dissipa raios na escuridão. O contra-luz também se destaca em várias cenas, uma das mais bem realizadas mostra em preto e branco a silhueta do corpo da personagem em contraponto com a luminosidade do céu.

Retratar a loucura é algo complicado e o filme de Marcos Prado percorre sobre essa linha tênue entre o excesso. Em alguns momentos do filme os devaneios de Estamira são mostrados com muita freqüência e muitas vezes sem necessidade. Contextualizar que Estamira sofre de alguns problemas é essencial, mas o filme tem partes em que se resumem os ataques psicóticos escancarados ao um público que não deveria ter tanto acesso a algo tão intimo. Parece que o diretor se encantou pela personagem, mas quem não se encantaria diante de uma Estamira? Apesar disso, o filme não perde seu brilho e se concretiza como uma bela obra poética de extrema valia, que veio a acrescentar para cinema brasileiro.

Por Pedro Moraes

Quem disse que o Brasil não faz bons filmes de terror?

À Meia-Noite Levarei sua Alma é o primeiro longa-metragem do cineasta brasileiro José Mojica Marins. O filme que é considerado o primeiro clássico de terror do cinema nacional, marca o surgimento de um personagem que se tornou folclórico no imaginário popular do cinema brasileiro, o Zé do Caixão. A película no formato preto e branco foi realizada em 1964 em plena ditadura militar e contesta de forma inteligente diversos dogmas culturais como a moral e a religiosidade.
A obra apresenta uma narrativa clássica, com a linearidade de inicio meio e fim bem definida. Os planos, iluminação e efeitos sonoros estão vinculados ao estilo do cinema dominante, encadeados de acordo com a necessidade de causa e efeito gerando impactos no espectador.
A aparência de Zé do Caixão surge com influências de diversos filmes clássicos do cinema, dentre outras, películas de duas fontes obrigatórias, o terror norte-americano e o expressionismo alemão. Podemos dizer que a estética se assemelha mais ao cinema de Hollywood, porém o personagem é mais semelhante ao eu expressionista.
Zé do Caixão possui as unhas semelhantes ao Nosferatu de Murnau (1922), e vestimentas típicas de Caligari e Cesare em O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene (1919). Visualmente, o personagem criado por Mojica também se assemelha a Béla Lugosi em Drácula (1931) e Chaney em London After Midnight (1927), ambos os filmes, de Tod Browning.
Apesar de não ser um filme inovador para a arte cinematográfica universal, À Meia-Noite Levarei sua Alma é algo diferente para o Brasil. Mojica traz para o país um mundo diegético diferente dos realizados por diretores brasileiros, pois no cinema nacional a esfera de terror nunca foi uma tradição cinematográfica. Por isso, Zé do Caixão ainda soa para os espectadores com um estranhamento, porém essa diferença atraiu uma grande bilheteria para o personagem, fazendo do Mojica um diretor de intensa produção nas décadas de 60, 70 e 80.
Os filmes de Mojica aparentemente ingênuos, analisado, por muitos como películas que apenas exibem um sangue barato, conseguiram por diversas vezes, burlar a censura de um país que vivia intensamente um período de ditadura militar, apresentando cenas de violência e nudez. Em plena repressão, À Meia-Noite Levarei sua Alma expõe um personagem anárquico, Zé do Caixão é um homem que não respeitava nada e menosprezava as autoridades da cidade e a instituições da sociedade como religião e família.
A película começa com um diálogo que vira rotineiro na obra de Mojica. O diretor usa um personagem do filme, neste caso uma cigana, para desafiar o espectador e contar um pouco sobre o que irá aparecer nas telas. Conversando com a câmera e utilizando frases de efeito do tipo: “vão embora, não assistam esse filme”, Mojica usa esta tática para criar um vínculo de verossimidade com quem esta assistindo o filme, fazendo da ferramenta um atalho para posteriormente na narrativa os fatos ficarem mais accessíveis ao sentimento do medo. Essas cenas são regadas a uma trilha sonora sombria e incrementadas com gritos e sussurros. Com poucas exceções, as imagens citadas são feitas pelo próprio diretor, que sempre aparece acompanhado por belas mulheres com vestimentas góticas ou semi-nuas.
Vale salientar que além do terror a obra no Mojica é marcada com fases de filmes de pornô-horror. E podemos encontrar diversas películas como Perversão e Inferno Carnal que além de tentar atrair o público para ver crimes, mortes e assassinatos, usa da morte ligado ao sexo para mexer com o fetichismo subconsciente do espectador, misturando elementos como sadismo, sexualidade e terror.
À Meia-Noite Levarei Sua Alma narra a vida do agente funerário de uma cidade pacata e conservadora chamado Zé do Caixão; um ser expressionista que tem suas emoções levadas ao extremo. O agente funerário é um ser odiado pelos moradores da cidade, que o considera uma figura demoníaca sendo uma aberração doentia e psicótica.
O personagem é obcecado pela idéia de propagar sua existência com um filho, esse ideal faz com que ele realize uma busca constante por uma companheira perfeita. Essa perfeição não é atrelada a sentimentos ou desejo de construir uma família, a busca é feita apenas com os critérios de não ter fé, ser bela e burlar de alguma forma o padrão de mente feminina da época.