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Por Pedro Moraes

Relendo esse livro, percebi mais uma vez a riqueza da construção narrativa de Truman Capote, é uma leitura obrigatória.

asanguefrio2Bastaram quatro tiros, cordas e fita adesiva, para que Perry e Dick realizassem um dos assassinatos mais frios e “surpreendentes” da historia dos EUA e da literatura. Truman Capote descreve passo a passo como esses dois personagens que geram uma terceira personalidade, planejaram e mataram brutalmente a família Clutter. A narrativa de A Sangue Frio é espetacular, um verdadeiro incentivo a leitura. Dificilmente um leitor por mais inexperiente que seja irá largar esse clássico na estante.
Truman Capote ao longo da história dá uma aula de literatura e jornalismo, nesta obra que é considerada um marco da literatura, por ter inaugurado uma nova proposta o “romance de não ficção”. É um exemplo perfeito para a categoria de Jornalismo Literário. Apesar do tema forte, a forma de contar a história se assemelha à outro mito do estilo, Joseph Mitchell em O Segredo de Joy Gold.
A sangue Frio não é apenas um romance policial. O seu suspense é envolvente da mesma forma que os clássicos de Conan Doyle em “Sherlock Holmes” ou de Alan Poe em “Os Crimes da Rua Morgue”, porém com um diferencial que deixa o livro ainda mais empolgante. O enredo é real. Sabemos desde começo que estamos lendo a historia de uma família como outra qualquer que será executada friamente dentro de alguns minutos de leitura.
O livro conta a história de um crime que abalou os EUA em 1959, numa cidadezinha do estado Kansas. A família Clutter, composta por quatro membros foi executada barbaramente numa pacata na cidadezinha chamada Holcomb. Truman Capote passou um ano na cidade para saber tudo sobre o caso, entrevistou amigos, parentes, vizinhos, desconhecidos e policiais. Depois das investigações e com os dois personagens presos, confirmou as informações com os próprios assassinos.

Diferente dos livros policiais o que chama a atenção do livro não é o assassinato, e sim o perfil psicológico que o escritor consegue traçar. Capote mostra os dois lados da moeda, o brutal e o humano. Ele humaniza de tal forma os assassinos que o livro acaba entrando em questões complexas na sociedade americana, como a pena de morte. A descrição realizada de Perry é tão sublime que em muitos momentos o leitor sente comoção ao ponto de desejar defender o personagem de seu cruel destino.
Perry é um típico sujeito pregado pelo francês Jacques Rousseau, o sujeito nasce puro, porém, a sociedade o corrompe, construindo uma personalidade má. O personagem é um romântico, gosta da música e dos versos, porém sofreu diversos traumas desde que nasceu. Presenciou a morte de sua mãe alcoólatra, que se afogou no seu próprio vômito e traia seu pai com diversos homens. A irmã se suicidou, e o pai traído era um garimpeiro desiludido.
Já Dick é um tradicional malandro, quando sua personalidade explosiva entrava em cena ele gostava de se divertir ao máximo, furtos, vandalismo e estupro não eram problemas para ele. Muitos dizem que se os dois estivessem sozinhos nada disto aconteceria, mas os dois unidos era uma combinação perfeita ao ponto de planejar e cometer o delito.
Perry Smith e Dick Hickcock se conheceram na prisão. Já para serem libertos, eles conversam com Flayd, outro detento, e descobrem que supostamente existia um milionário chamado Clutter que teria um imenso cofre dentro de casa. Os dois decidem então infligir mais uma vez a lei e seguirem viagem em direção a casa dos Clutters.
Chegando na fazenda,os dois assassinos acordaram o Sr. Clutter, logo em seguida o filho, mãe e filha. Procuraram o tesouro imaginário exaltivamente, quando viram que não existia, começou o terror. Amarraram o pai no alçapão, o filho no outro cômodo, a mãe e a filha em quartos separados. Todos amordaçados e amarrados com cordas de nylon com nó bem forte do jeito que amarra boi (experiência de Smith, pois seus pais eram vaqueiros). Sr.Clutter até que tentou pagá-los com cheque, mas Smith teve mais uma das suas insanidades mentais e Dick com seu temperamento explosivo não suportou mais essa aflição, a terceira personalidade entrou em cena, e a sangue frio todos foram mortos.
Ao saírem da fazenda levaram apenas um binóculo, um rádio e 40 dólares. Fugiram para o México, numa aventura sonhada por Perry, furtaram carros e passaram cheques sem fundo e transaram com prostitutas. Viram que o México não rendeu o que esperavam e tiveram a loucura de voltar para Kansas. Voltaram pedindo carona pelo caminho e ainda pensaram em matar algum caroneiro para roubar o carro, se alimentavam pelo caminho através das suas malandragens.
Só que Dick não esperava a traição do companheiro, Flayd, o mesmo que informou sobre o cofre ilusório foi quem testemunhou contra eles no tribunal. Flayd ao ouvir pelo rádio a recompensa pelas cabeças de Dick e Smith, referente ao assassinato contou o que sabia à polícia.
Ao voltar para os Estados Unidos foram pegos pela patrulha policial, que acusaram de roubo de carro e estelionatário. Um mero pretexto para começar os depoimentos principais. Com um forte interrogatório, a policia mostrou para eles as provas do crime, pois eles não lembraram da bagagem deles dentro do carro, onde continha os sapatos do dia do crime e restos da corda.
Depois de confessarem o crime, só cinco anos depois a suprema corte dos EUA confirmou a sentença, sendo confirmado o enforcamento dos bandidos, no dia 14 de abril de 1965, quando foram executados a sangue frio. Junto das outras dezenove testemunhas, Truman Capote assistiu ao enforcamento de Richard Hickock. A segunda, o autor não conseguiu assistir.
“Truman Capote levou seis anos para escrever A sangue frio. Dizia que não poderia terminá-lo sem saber o destino dos acusados. O final do livro – e das vidas de Richard Hickock e Perry Smith – seriam momentos marcantes também em sua vida (ele conta que foi tão difícil escrever as últimas seis ou sete páginas que sua mão ficou paralisada. Ele escrevia à mão). Capote não poderia assistir ao enforcamento dos dois, mas Hickock e Smith o indicaram como uma das três testemunhas a que tinham direto. Truman Capote foi o confidente dos dois ao longo dos anos de cárcere. Na véspera da execução, pediram para estar com ele pela última vez. Capote desmontou”. Pág. 427