Arquivo da categoria ‘Literatura’

Fonte: SECULT

O quê: Debate Jornalismo Literário – O New Jornalism (CCBB Itinerante)

Onde: Sala do Coro do Teatro Castro Alves

Quando: 18 de agosto, terça-feira, às 19 horas

Entrada gratuita


No dia 18 de agosto, das 19h às 21h, dentro da programação do Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante (CCBB Itinerante) Etapa Salvador será realizado o debate Jornalismo Literário – O New Journalism e as Experiências Inovadoras do Jornalismo Brasileiro, com a presença dos jornalistas e escritores Luiz Carlos Maciel e Nirlando Beirão. Com mediação da jornalista e editora do suplemento Revista de A Tarde, Nadja Vladi, o encontro acontece na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, com entrada gratuita.

O objetivo do debate é o de discutir o Jornalismo Literário, no Brasil e no mundo, apresentando o que de melhor foi produzido no gênero. Nirlando Beirão deverá apresentar o tema em linha gerais: o que é o New Journalism, quando surgiu, seus expoentes e as experiências inovadoras do jornalismo brasileiro. Luiz Carlos Maciel vai falar sobre sua carreira e, em especial, seu trabalho no jornal O Pasquim, do qual foi um dos fundadores.

Luiz Carlos Maciel é escritor, jornalista, roteirista. Foi um dos fundadores do lendário Pasquim, onde era o responsável pela coluna Underground, na qual foram divulgadas para o Brasil as primeiras informações sobre o movimento da Contracultura, nos anos sessenta. Trabalhou em jornais no Rio de Janeiro, entre eles Jornal do Brasil, Última Hora e na revista Fatos e Fotos. Editou o semanário Rolling Stone. Foi crítico de teatro para a revista Veja de 1977 a 1979. Em 1996, publicou Geração em Transe (Nova Fronteira,1996), em que aborda diferentes momentos e obras da contracultura brasileira. Em 1998, seu roteiro para o filme de longa-metragem Dolores foi premiado pelo Ministério da Cultura.

Nirlando Beirão é jornalista e escritor. Nasceu em Belo Horizonte e estudou Antropologia na Universidade Federal de Minas Gerais e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi editor de Política de Veja; editor de Cultura de Istoé; redator-chefe de Senhor; colunista do Estado de S. Paulo; editor de Playboy; diretor de redação de Caras. Assina hoje a seção Estilo em Carta Capital, é diretor-adjunto da Revista Brasileiros e publisher da Wish Report. Tem vários livros publicados, entre eles um sobre a região dos Jardins, em São Paulo, um sobre bares – cultura e boemia –, uma biografia do arquiteto Cláudio Bernardes, outra do ex-ministro Sergio Motta e, em parceria com o publicitário Washington Olivetto, a segunda edição de Corinthians: É Preto no Branco – embora sua família mineira continue dizendo por aí que ele é, de fato, Atlético Mineiro.

As senhas para o debate devem ser retiradas com uma hora de antecedência, na bilheteria do teatro.

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Por Pedro Moraes


VO  01“A deusa da minha rua / tem os olhos onde a lua / costuma se embriagar / Nos seus olhos eu suponho / que o sol num dourado sonho / vai claridade buscar”. Como na música interpretada por Nelson Gonçalves, os olhos de Guiomar Moraes, ou simplesmente, Guió, que atualmente está com 86 anos, embriagaram a lua e o coração de muitos homens, que dedicaram suas vidas a venerar uma das mulheres mais lindas e especiais que o recôncavo baiano conheceu.
Quem não conhece a bondosa dona Guió, está convidado a conhecê-la, através de uma a viagem para diversos momentos da sua vida. Nosso primeiro destino será sua cidade natal, São Félix, interior da Bahia, em 15 de janeiro de 1923.
A cidade crescia numa época dourada. Era o apogeu do recôncavo baiano. Fábricas de charuto, chocolate e tecido movimentavam a economia local que tinha sua produção escoada pelos trilhos da antiga companhia Ferroviária Leste do Brasil. Modelada no divino barro, nasce Guiomar, sob a regência de aquário, numa manha onde o sol expunha toda sua força. Paulino, seu pai, sempre comentava que “o astro iria iluminar a essência de sua filha até o fim de seus dias”.
Guió perdeu a mãe com apenas dois anos. Desde então, se apegou ao pai e até hoje conta com muito orgulho suas histórias. Paulino era espiritualista, vivia alegre e sempre que encontrava algo que lhe chateasse colocava o chapéu na cabeça e dava uma volta para arejar a mente. Chegou a ser vereador da cidade e ficou conhecido por usa inteligência e uma capacidade de liderança que poucos tinham. Filho de português, não resistia a uma companhia feminina e acabou ficando viúvo por quatro vezes. Guió nasceu do primeiro casamento e teve cinco irmãos: Rita, Lourival, João, Celso e Antônio. Lourival, João e Antônio já faleceram.
Sua família vivia de um armazém, localizado no centro da cidade. O comércio era sortido, vendia de tudo, desde o fumo de corda, usado até para limpar dentes, à carnes defumadas. Paulino cuidava do local. Nas horas vagas, uma boa partida de dominó e um bate-papo com os amigos ajudavam a passar o tempo.
Guió se recorda com alegria dos ensinamentos de seu velho, falecido há 30 anos. Segundo a musa, tudo que aprendeu deve ao saudoso pai, o homem que a deixou como herança o fascínio pela leitura e a arte de levar a vida com naturalidade; sempre disposto a resolver os problemas com um belo sorriso.
Como criança sua vida não poderia ter sido melhor. Subia em jaqueiras, corria nos sítios da família e tomava banho nos rios. A diversão era completa quando estava na companhia das amigas e de sua doce avó Matilde. Guió quando criança era peralta. Na escola se destacava com uma das melhores alunas, sendo muito admirada pela professora Maria da Glória, que não se cansava de apertar suas fofas bochechas.
Perfume De Mulher – Aos 12 anos sua beleza já começava a se destacar na cidade e ainda com mente de menina, não entendeu o que significava uma carta que recebeu de Martinho, um homem de aproximadamente 40 anos, pedindo-a em casamento. A inocente Guió escondeu na bolsa a carta e levou com todo cuidado para sua prima Julieta, que ficou horrorizada com a proposta, se sentindo obrigada a mostrar para Paulino.
Martinho, que se considerava amigo da família foi chamado pelo pai da garota a uma séria conversa. Depois de ser repreendido, o envergonhado apaixonado seguiu viagem ao Rio de Janeiro. A amizade entre Paulino e Martinho se encerrou naquele momento para sempre.
A pequena garota de bochechas rosadas cedeu lugar para uma morena, com um rosto de beleza indescritível. Com cerca de 1.70m, olhos castanhos e cabelos cor de cobre, Guiomar se tornou uma soberana flor, como descreveu o mestre Pixinguinha, uma musa “divina e graciosa estátua majestosa do amor”. A combinação de várias qualidades em único ser estava radiante a ponto de ofuscar os olhos de quem olhava a “láctea estrela (…) tudo enfim que tem de belo, todo resplendor da natureza”.
Um simples caminhar, ou um mero virar de olhos, era o símbolo máximo de sedução para os são felistas, que não resistiam em vê-la passar. Seu cheiro, aromatizado pela essência francesa, “Isa” era perseguido por admiradores que facilmente se apaixonavam. “A Musa de minha rua” era cantada por apaixonados, seduzidos por seu vulto. Eles viviam numa “rua sem graça / mas quando por ela passa / a ruazinha modesta” virava “uma paisagem de festa / uma cascata de luz” (Newton Teixeira – Jorge Faraj).
Nessa época recebeu um convite para ser a garota Colgate, exibindo o belo sorriso perolado nos rótulos do produto. Mas, segundo Albertina, sua madrasta, uma moça de família não podia aceitar um convite desses.
Certo dia, antes de dormir, Guió foi surpreendida com a primeira serenata. Lá estavam três rapazes. O que cantava, era mais um hipnotizado pela musa do recôncavo, os outros, eram músicos que ajudavam o apaixonado interpretar o clássico da era do rádio, “Rosa”. A voz rouca do rapaz entoava, “Tu és a forma ideal, estátua magistral / oh alma peneral do meu primeiro amor / sublime amor / tu és de Deus a soberana flor”.
A surpresa deixou Albertina furiosa, que achava a cena uma falta de respeito! Porém, Paulino adorou, abriu a janela e pôs o rosto de fora para ouviu a música e ver quem eram os novos admiradores de sua bela filha. Guió sorria, mas como uma perfeita musa, permaneceu dentro de casa.
Muitos foram os apaixonados que tentaram de diversas formas conquistar a atenção de Guiomar. Mas, nunca existiu um mais incansável que Laurentino. O Romeu sem Julieta era um artesão e trabalhava na Leste. Passava o seu tempo livre fazendo diversas obras talhadas em madeira para a amada, enviava perfumes, frutas e declarava seu amor em todos os cantos da cidade. Até que presenciou Guió de braços dados com um namorado desfilando em praça pública! Isso foi demais para ele, o coitado deu uma vertigem, passou mal e foi chorar na casa da musa, aos ouvidos de Albertina.
Não pensem que ele desistiu. Por inúmeras vezes o romântico de São Félix, mandou cartas e bilhetes, mas nunca houve nenhum tipo de resposta. Guió resume com uma frase direta e sem nenhuma possibilidade para uma réplica. ”Laurentino era uma boa pessoa, mas definitivamente não era meu tipo, era muito insistente e não sentia nada por ele”. Reza a lenda que até hoje Laurentino sonha que Guió vire sua Julieta.
A musa do recôncavo coordenava telefonistas de 17 municípios vizinhos de São Félix e enviava relatórios de todas essas cidades para Companhia de Energia Elétrica, que na época, fornecia também o serviço de telecomunicações. Nesse tempo ajudou muitas pessoas. São diversos os casos em que a Dona Guiomar serviu de anjo da guarda para mudar a realidade de pessoas esquecidas pela sociedade. Sua determinação para ajudar o próximo se reflete na quantidade de afilhados que Guió teve. Ao todo foram 25 famílias que confiaram a Guiomar os filhos e filhas.
Em um dia de trabalho, conheceu Amador. Um mineiro com quinze anos a mais, já viúvo. Nada além de uma troca de olhares aconteceu nesse primeiro encontro. Porém, o educado e clássico senhor que passava por São Felix realizando uma conferência na empresa, não resistiu e perguntou a Sr. Botelho chefe da companhia quem era a linda mulher a qual tinha avistado à sua frente.
Amador se rendeu ao sentimento que brotava e conversou com Guiomar, pedindo a moça em namoro. O “sim” como resposta ecoou nos ouvidos do pretendente de tal forma, que logo começou a viajar para São Félix de 15 em 15 dias para se ver a amada. O encontro era formal, e sempre ocorria na sala de Guió, sentados no sofá na companhia de um cachorro, conhecido como “sultão”. Aí do namorado, se ele sonhasse em encostar, o fiel cão de guarda sentava bem no meio do casal e não hesitava em mostrar suas enormes presas a Amador.
O namoro durou dois anos, até que Amador foi até a igreja e marcou sem o conhecimento de Guiomar o casamento. Pouco tempo antes da data, Guió foi surpreendida pelo padre da cidade que veio entusiasmado abraçá-la, contando a novidade.
A marcha nupcial é iniciada, a musa estava deslumbrante, vestia um vestido branco, de renda francesa, exibindo todo o glamour da época. Caminhando como uma diva, desfilou pausadamente de braços dados com o pai indo ao encontro de seu futuro esposo. Muitos choraram de felicidade, porém aquele 2 de março, foi dia de luto para muitos homens apaixonados que nunca conseguiram chamar atenção da musa.
Amador e Guiomar viveram juntos por 37 anos. Em um relacionamento sem aranhões ou qualquer tipo de mácula. Tiveram três filhos e viajaram juntos pelo Brasil e a outros paises. Mesmo bem casada, a musa não deixou de receber galanteios. Certa vez um senhor que Guió ajudava com mantimentos, tomou um porre, e foi a porta de sua casa cantar “Índia os seus cabelos…”. Só ficou nos cabelos, porque a dama fechou imediatamente a porta e o novo apaixonado nunca mais apareceu.
Os ponteiros passaram. O único amor de sua vida, Amador, faleceu com 84 anos em 1994. Guió atualmente mora com seus três filhos, se tornando em sua família um destaque por sua sabedoria e lições de vida, que com firmeza transmite a todos que te cercam. A beleza da carne não é a mesma, mas nos olhos da eterna musa, permanece “a cascata de luz” onde de algum lugar do passado a lua ainda vem se embriagar.

(Nota de Divulgação)

http://editoraplus.org/livros/gente-das-aguas/comment-page-1/#comment-9287

Muitos de nós estamos tão acostumados com a equação jornais = notícias, que esquecemos como o mundo não pode ser resumido, sempre, em 200 palavras. Para nos recordar como o bom jornalismo é um testemunho permanente do mundo, e de nós mesmos, trazemos aos leitores Agnes Mariano.

Nesse livro, a autora reúne quatro grandes reportagens, uma reportagem especial e dois perfis, sobre a história e histórias da Bahia e do litoral baiano, acompanhadas de inúmeras fotos das praias, das pessoas e das paisagens.

Clique aqui e confira esse material  gratuitamente.

É uma pena, o grupo não existe mais. Trabalho, faculdade, trânsito, distância, vida…
Cada um com projetos novos foram para locais diferentes. Mas agradeço a esses singelos palhaços por terem me oferecido em poesia e interpretação, um momento tão singular.

Flores que Brotam com a Arte.

Por Pedro Moraes

“Os palhaços vão valsando no mundo, lutando com todas as armas da arte, simples mancebos bastardos destarte, vão esbarrando em esquizóides bailando (…) Vai a humanidade dançando errado, de modo que contra a dança vigente, vão os palhaços com a arte contra dançando” (Frag. A valsinha dos Palhaços, Davi Nunes).

Abram as cortinas. Vou apresentar para vocês “As Flores Mortas do Palhaço”, um grupo artístico que mistura em um grande liquidificador cultural teatro, poesia, conto e música. Não será surpresa encontrar Davi Nunes, Glauber Albuquerque, Beta e Raphael Labussiere, produzindo arte em um bar, casamento, show, faculdade, manicômio ou praça. Espera ai, Manicômio? Isso mesmo, por mais “louco” que possa parecer, foi no maior centro de reabilitação mental da cidade, o Juliano Moreira, que esses jovens artistas demonstraram uma de suas mais belas veias artísticas, o teatro.Teatro02
O público permanecia sentado, porém inquieto, sedado, mas com o olhar voltado para o palco. Dividido em dois grupos, os internos colocaram seus sentimentos em sintonia com a doce e calma “Valsinha dos Palhaços”, dedilhada em versos “os palhaços vão valsando no mundo” e recitada em acordes, “lutando com todas as armas da arte”, lá estava Davi Nunes, mostrando sua obra e puxando a fila de amigos artistas. Com os rostos pintados, a confraria artística estava reunida, interpretando uma peça de Raphael e recitando além de outros poetas o bom e velho Raul Seixas.
O grupo conquistou a interação dos pacientes, que responderam com gestos, versos e canções. Ao convidar o público para o palco, várias surpresas apareceram. Raphael impressionado diz que “uns subiram no palco e cantaram músicas populares. Teve um interno que pegou o violão e começou a tocar, as posições das notas estavam corretas, o som não saia muito bom porque ele se tremia, eram os efeitos dos remédios. Nos trouxeram também uma poesia que eles fizeram, falava sobre o dia-a-dia de um hospício, parece que alguns médicos só enxergam eles como loucos, não como pessoas”.
“Se todo artista é louco e vocês também são artistas, vamos ser loucos juntos”. Depois da declaração, Glauber, intérprete do vilão da peça, tirou a roupa juntamente com os outros artistas, por baixo, para a surpresa dos internos estava a farda do hospital. Eufórico, um dos internos gritou: “É do Juliano!” a maioria da platéia sorria e a alegria tomou conta do espaço. “Esse não foi o único momento que nos emocionou”, comenta Glauber, “quando estava no palco recitando uma poesia olhei para os olhos de uma paciente. Ela vibrava com o texto, comovida, estava quase chorando. Tive a certeza que ela estava sentindo a poesia. Foi a maior emoção que já tive ao recitar”, conclui o poeta.
A arte após a reforma psiquiátrica é utilizada como umas das terapias mais indicadas em centros de reabilitação mental. Como reflexo, no Juliano, toda quarta e sábado é dia de cinema e no domingo acontece o projeto “tô maluco para te ver” com diversas bandas. Para a assistente social do centro, Tânia Nascimento “a criação artística fornece aos pacientes um espaço para expressão da criatividade e espontaneidade. É um modelo de tratamento que ajuda a vê-los como sujeito não como sintoma. Favorece muito na reabilitação do paciente”.
Teatro11Os artistas fundaram o grupo em 15 de agosto de 2002 com quatro pilares: arte, união, singularidade e anti-capitalismo. “Nossa intenção foi criar um ambiente onde amigos pudessem libertar seu lado lírico e poético, encontrando um lugar onde nossas verdadeiras essências fossem reveladas que é a de libertar a fantasia do ser, dando vez ao lado poético, em oposição a toda hipocrisia que percebemos nas relações sociais”, relata Glauber, um dos fundadores do grupo. Hoje, As Flores Mortas do Palhaço, se apresentam gratuitamente com a participação de integrantes que flutuam de acordo com a obra e quatro integrantes fixos (Glauber, 22, morador do Vale dos Lagos, Davi, 21, residente em Narandiba, Raphael, 21, que mora no Cabula e Beta, 21, moradora no Trobogy).
As cortinas não se fecham aqui, o trabalho do grupo é muito mais amplo. Se você está interessado em conhecer melhor ou participar desta confraria de amigos, todos os domingos, às 15h, acontece uma reunião em frente ao “monumento” Luis Eduardo Magalhães, na entrada do Parque Ecológico de Pituaçu. O contato também pode ser feito pelo site, (www.floresmortas.cjb.net) na sede do grupo (Vale dos Lagos, Condomínio Dom Bosco casa 2) ou ligando para um dos dois componentes Glauber (3232-3697) e Davi (3230-0291).

Por Pedro Moraes

Relendo esse livro, percebi mais uma vez a riqueza da construção narrativa de Truman Capote, é uma leitura obrigatória.

asanguefrio2Bastaram quatro tiros, cordas e fita adesiva, para que Perry e Dick realizassem um dos assassinatos mais frios e “surpreendentes” da historia dos EUA e da literatura. Truman Capote descreve passo a passo como esses dois personagens que geram uma terceira personalidade, planejaram e mataram brutalmente a família Clutter. A narrativa de A Sangue Frio é espetacular, um verdadeiro incentivo a leitura. Dificilmente um leitor por mais inexperiente que seja irá largar esse clássico na estante.
Truman Capote ao longo da história dá uma aula de literatura e jornalismo, nesta obra que é considerada um marco da literatura, por ter inaugurado uma nova proposta o “romance de não ficção”. É um exemplo perfeito para a categoria de Jornalismo Literário. Apesar do tema forte, a forma de contar a história se assemelha à outro mito do estilo, Joseph Mitchell em O Segredo de Joy Gold.
A sangue Frio não é apenas um romance policial. O seu suspense é envolvente da mesma forma que os clássicos de Conan Doyle em “Sherlock Holmes” ou de Alan Poe em “Os Crimes da Rua Morgue”, porém com um diferencial que deixa o livro ainda mais empolgante. O enredo é real. Sabemos desde começo que estamos lendo a historia de uma família como outra qualquer que será executada friamente dentro de alguns minutos de leitura.
O livro conta a história de um crime que abalou os EUA em 1959, numa cidadezinha do estado Kansas. A família Clutter, composta por quatro membros foi executada barbaramente numa pacata na cidadezinha chamada Holcomb. Truman Capote passou um ano na cidade para saber tudo sobre o caso, entrevistou amigos, parentes, vizinhos, desconhecidos e policiais. Depois das investigações e com os dois personagens presos, confirmou as informações com os próprios assassinos.

Diferente dos livros policiais o que chama a atenção do livro não é o assassinato, e sim o perfil psicológico que o escritor consegue traçar. Capote mostra os dois lados da moeda, o brutal e o humano. Ele humaniza de tal forma os assassinos que o livro acaba entrando em questões complexas na sociedade americana, como a pena de morte. A descrição realizada de Perry é tão sublime que em muitos momentos o leitor sente comoção ao ponto de desejar defender o personagem de seu cruel destino.
Perry é um típico sujeito pregado pelo francês Jacques Rousseau, o sujeito nasce puro, porém, a sociedade o corrompe, construindo uma personalidade má. O personagem é um romântico, gosta da música e dos versos, porém sofreu diversos traumas desde que nasceu. Presenciou a morte de sua mãe alcoólatra, que se afogou no seu próprio vômito e traia seu pai com diversos homens. A irmã se suicidou, e o pai traído era um garimpeiro desiludido.
Já Dick é um tradicional malandro, quando sua personalidade explosiva entrava em cena ele gostava de se divertir ao máximo, furtos, vandalismo e estupro não eram problemas para ele. Muitos dizem que se os dois estivessem sozinhos nada disto aconteceria, mas os dois unidos era uma combinação perfeita ao ponto de planejar e cometer o delito.
Perry Smith e Dick Hickcock se conheceram na prisão. Já para serem libertos, eles conversam com Flayd, outro detento, e descobrem que supostamente existia um milionário chamado Clutter que teria um imenso cofre dentro de casa. Os dois decidem então infligir mais uma vez a lei e seguirem viagem em direção a casa dos Clutters.
Chegando na fazenda,os dois assassinos acordaram o Sr. Clutter, logo em seguida o filho, mãe e filha. Procuraram o tesouro imaginário exaltivamente, quando viram que não existia, começou o terror. Amarraram o pai no alçapão, o filho no outro cômodo, a mãe e a filha em quartos separados. Todos amordaçados e amarrados com cordas de nylon com nó bem forte do jeito que amarra boi (experiência de Smith, pois seus pais eram vaqueiros). Sr.Clutter até que tentou pagá-los com cheque, mas Smith teve mais uma das suas insanidades mentais e Dick com seu temperamento explosivo não suportou mais essa aflição, a terceira personalidade entrou em cena, e a sangue frio todos foram mortos.
Ao saírem da fazenda levaram apenas um binóculo, um rádio e 40 dólares. Fugiram para o México, numa aventura sonhada por Perry, furtaram carros e passaram cheques sem fundo e transaram com prostitutas. Viram que o México não rendeu o que esperavam e tiveram a loucura de voltar para Kansas. Voltaram pedindo carona pelo caminho e ainda pensaram em matar algum caroneiro para roubar o carro, se alimentavam pelo caminho através das suas malandragens.
Só que Dick não esperava a traição do companheiro, Flayd, o mesmo que informou sobre o cofre ilusório foi quem testemunhou contra eles no tribunal. Flayd ao ouvir pelo rádio a recompensa pelas cabeças de Dick e Smith, referente ao assassinato contou o que sabia à polícia.
Ao voltar para os Estados Unidos foram pegos pela patrulha policial, que acusaram de roubo de carro e estelionatário. Um mero pretexto para começar os depoimentos principais. Com um forte interrogatório, a policia mostrou para eles as provas do crime, pois eles não lembraram da bagagem deles dentro do carro, onde continha os sapatos do dia do crime e restos da corda.
Depois de confessarem o crime, só cinco anos depois a suprema corte dos EUA confirmou a sentença, sendo confirmado o enforcamento dos bandidos, no dia 14 de abril de 1965, quando foram executados a sangue frio. Junto das outras dezenove testemunhas, Truman Capote assistiu ao enforcamento de Richard Hickock. A segunda, o autor não conseguiu assistir.
“Truman Capote levou seis anos para escrever A sangue frio. Dizia que não poderia terminá-lo sem saber o destino dos acusados. O final do livro – e das vidas de Richard Hickock e Perry Smith – seriam momentos marcantes também em sua vida (ele conta que foi tão difícil escrever as últimas seis ou sete páginas que sua mão ficou paralisada. Ele escrevia à mão). Capote não poderia assistir ao enforcamento dos dois, mas Hickock e Smith o indicaram como uma das três testemunhas a que tinham direto. Truman Capote foi o confidente dos dois ao longo dos anos de cárcere. Na véspera da execução, pediram para estar com ele pela última vez. Capote desmontou”. Pág. 427