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Assim como em uma projeção cinematográfica, vamos voltar no tempo por 30 anos. Mas nesse filme imaginário, não teremos superproduções norte-americanas e nem o rebuscamento intelectual do cinema europeu, e sim, curtas-metragens realizados com garra e coragem, no semiárido baiano, dirigidos por um “fazedor de filmes”, o soteropolitano de alma sertaneja: Sandoval Dourado.

Filho da artesã de Irecê, Constança, e do bancário aposentado de Canarana, Sinobelino, Sandoval, nasceu em 79. Quando pequeno, passou os seis primeiros anos na capital baiana, até começar uma vida quase nômade, migrando por várias cidades, como Salvador, Itaberaba, Irecê e Andaraí.

Formado em Design pela UNIFACS, sempre gostou de cinema, mas o despertar para sétima arte aconteceu quando morava em Andaraí. “Estavam rodando um filme do lado de minha casa, Tuna Espinheira gravava o longa-metragem Cascalho, então dei para eles todo suporte de informática, montando a rede e daí fui até figurante. Quando olhei aquela iluminação, os profissionais, e toda aquela megaprodução me apaixonei, foi muito interessante”.

Mesmo com o fascínio, o jovem design ficou sem ter contato com a prática cinematográfica por mais três anos, por falta de equipamento. “Foi então que comecei trabalhar com um colega, que foi meu monitor na faculdade. Ele tinha uma produtora de vídeo que fazia filmagens para casamentos, festas e formatura e fui fazer sites para a empresa. Na época, fiquei sabendo de um festival de vídeo da TVE e fiz uma proposta para realizar um curta em Mato Verde de Canarana. Foi dessa experiência que surgiu meu primeiro filme, Amuleto”, conta Sandoval.

O curta-metragem Amuleto nasceu vencedor e conquistou no festival da TVE o prêmio de melhor direção e em Santa Maria no Rio Grande do Sul, o prêmio de melhor vídeo na categoria de até 2 minutos. “Não sei se por competência ou sorte, mas tivemos um ótimo resultado. Foi então que pensei, sem experiência e pouca produção ganhamos de pessoas experientes. Naquele momento que percebi que fazer filmes era o que queria para fazer por toda minha vida”. Amuleto conta a historia de um vaqueiro em 90 segundos, evidenciando seu ciclo de vida, a história gira em torno de um cavalinho que ele guarda como amuleto desde criança.

Em 2007, Sandoval deixou Salvador para morar em Irecê, ao receber um convite de um empresário local, para abrir uma empresa, foi então que surgiu a “Sertão Filmes”. A produtora começou fazendo coisas simples, como filmar festividades, porém de acordo com Sandoval, “essa era só uma forma de ganhar dinheiro, meu intuito mesmo era fazer filmes. Tentei no mesmo ano um curta sobre as lendas do sertão, as famosas livusias. Porém, depois de quase pronto, percebi que ficou muito ruim e fiz questão de apagar tudo”.

“Quando voltei para Irecê as pessoas diziam, você é maluco? Vai sair de uma capital para ir morar no interior e fazer cinema? Mas tem que deixar algum maluco mesmo fazer essas coisas, se não, quem vai fazer? Quero plantar alguma coisa e deixar algo de útil, não adianta passar a vida toda só trabalhando para fazer a feira e morrer fazendo isso, não pretendo ser famoso, mas quero ser reconhecido pelo que faço”, enfatiza Sandoval.

PATUÁ No ano seguinte, a produtora estava com os equipamentos parados, o mercado não estava em uma época boa, mas das dificuldades surgiu a ideia de filmar mais um curta, Patuá. Sandoval convidou parentes e amigos e começaram o novo trabalho. “Começamos a nos reunir, até que minha tia disse para conversar com Sólon Barretto, que ele poderia me ajudar, a principio, relutei. Afinal, não tinha dinheiro para pagar atores, mas para minha surpresa ele me deu o maior apoio e disse: o que você precisar para o elenco pode contar comigo”.

Cena do Filme Patuá

Com a parceria firmada, iniciaram as gravações. As filmagens aconteceram no mesmo local de Amuleto, em Canarana, após quatro dias de muito trabalho, as cenas estavam captadas. Baseado em fatos reais, o filme narra o drama de um sertanejo, onde o pai vai para outra cidade em busca de uma vida melhor, deixando a esposa e dois filhos. Passando por diversas privações a mãe dos garotos conhece um pescador e começa um novo relacionamento. Patuá é um filme bem executado, em todos aspectos, bela fotografia, interpretação, trilha, roteiro e direção. O curta tem um final intrigante, deixando no ar, para o apreciador, diversas possibilidades de conclusão da obra. “O final é trágico. Porém, nem eu mesmo sei o motivo, o final da história é surreal, deixei ele aberto e subjetivo de propósito”.

Patuá que estreou no auditório do colégio modelo em Irecê, ganhou rapidamente o estado e mundo, sendo exibido em vários locais, como, Jacobina e Xique-Xique, Belo Horizonte, Fórum de Cineclubes de Lençóis, Festival Arraial Cinefest de Porto Seguro, Sala Walter da Silveira em Salvador e Rotterdam na Holanda.

“Fiquei sabendo que tinha um festival de filmes independentes e mandei para o “Câmera Mundo” em Rotterdam, mas encaminhamos o vídeo sem pretensões, acreditava que nem ia ser exibido. Fomos selecionados e fui com Sólon para Holanda, o pessoal gostou bastante e mesmo concorrendo com 120 filmes, ganhamos um dos prêmios mais importantes o de “Incentivo Câmera Mundo”, que ele dão ao diretor ou grupo que mesmo com baixo custo conseguiram finalizar o melhor filme. Quando anunciaram os vencedores, não acreditei, fiquei emocionado, pois nunca imaginaria que iríamos ganhar”.

Outro filme do diretor é o curta “Rodagem”, resultado de uma oficina realizada em um distrito de Lapão-BA, de mesmo nome que o filme, onde foram selecionadas pessoas da comunidade interessadas no trabalho. Após as aulas, cada um cumpriu uma função diferente e o resultado foi valoroso. “Senti um compromisso inigualável, das equipes que trabalhei, ela foi a melhor. Não acreditava que iríamos fazer o que conseguimos, deixei tudo na mão deles só fiz a direção. Conseguir plantar uma semente entre eles, a equipe que fez o filme já está filmando outro curta. Espero que daqui a cinco, dez anos muitas pessoas estejam produzindo, esse é meu sonho. Voltei para Irecê não só para produzir cinema, quero incentivar, plantar, para que diversos grupos façam filmes e transformem nossa região em uma referência na área”.

“A fruta e fruteira” é o mais recente curta premiado do diretor. O filme realizado a partir de um convite feito pela escola Edimaster, teve como objetivo concorrer ao festival da Rede Pitágoras em Belo Horizonte. O resultado foi positivo e foi indicado para cinco categorias(trilha, figurino, fotografia, ator e atriz), sendo premiado como melhor fotografia(do próprio Sandoval) e melhor atriz com Marina Andrade.

Influenciado pelos filmes nacionais que trabalham com a temática do sertanejo, Sandoval diz fazer filmes para o povo e não apenas para intelectuais. “Tento fazer vídeos agradáveis, sempre prezando pela técnica, a fotografia mesmo gosto de deixar sempre redondinha”. Atualmente, Sandoval que é assessor da prefeitura de Irecê, está trabalhando em mais um filme: “Minha Vida Não Cabe Em um Outdoor”.

Pedro Moraes

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Criatividade e pluralidade artística podem definir o jovem cineasta, de 17 anos, Alexander Barreto, uma figura promissora que se encantou com o mundo das artes há dois anos e já demonstra potencial para executar belos trabalhos. Convivendo com a arte em casa, influenciada pelo pai Péricles Barreto e o tio Sólon Barreto, ambos nomes conhecidos no teatro da região de Irecê-BA, Alexander realizou três curtas-metragens que disputaram o Prêmio Vitor Diniz, como jovem realizador, no “XIII Festival Nacional dos Cinco Minutos”,  em Salvador. “A Natureza Responde”, “O assalto que não houve” e “Fantasma do Lixo” são obras com preocupação social, debatendo o meio ambiente e violência.  As três produções foram realizadas para o festival e com poucos equipamentos o jovem cineasta se desdobra para participar de todas as etapas de uma criação audiovisual, criando o roteiro, interpretando, dirigindo as cenas, captando som, filmando algumas sequências e editando o vídeo.

O CURTA-METRAGEM “A NATUREZA RESPONDE”, realiza uma reflexão sobre os hábitos de um jovem que no dia-a-dia insiste em destruir o meio-ambiente, mostrando que para toda agressão existe um retorno. O vídeo possui imagens interessantes, criativas e com boas composições de cena, destaco a que o personagem segue em direção a sua “vítima” (uma árvore) e filmando em contra-luz, são evidenciados os detalhes de uma faca passando por um portão de ferro. A edição tem cortes rápidos, com possíveis influências da linguagem do videoclipe e televisão, o roteiro é simples, porém bem elaborado, a interpretação do ator (Alexander) é boa, todavia é preciso ressaltar que o papel não exige muito de suas habilidades. Alexander peca na edição do áudio, utilizando uma trilha alta, em relação a voz e um pouco desconecta das imagens, porém, capta o som ambiente, como ruídos de portas, água e carro com qualidade.

“O ASSALTO QUE NÃO HOUVE” é um vídeo cômico que retrata a noite de dois irmãos gêmeos, mas de personalidades opostas, que ao debaterem sobre a violência são assaltados em casa. O curta ganha um teor engraçado quando a suposta ladra aparece, uma criança baixinha e frágil que enfrenta em um combate marcial os dois irmãos.  Mais uma vez, o vídeo possui boas imagens, os melhores momentos dessa composição ficam em dois pontos. No começo da narrativa onde são efetuados belos closes e na invasão da assaltante onde em preto e branco são intercalados planos abertos e fechados em um bom sincronismo. O roteiro dessa obra poderia ter uma diretriz mais elaborada, pois, fica um pouco óbvio que após debaterem sobre violência e apagarem as luzes vai acontecer alguma coisa. Alexander como ator ganha um novo desafio nesse curta, interpretar dois personagens, essa tarefa ele realizada com sucesso, evidenciando boas expressões faciais, gesticulações e uma dinâmica de texto eficiente. Como diretor e editor, o obstáculo é maior. Em algumas cenas não existe continuidade, fazendo com que o personagem reapareça em lado diferente da cena anterior, em alguns cortes nos diálogos, feitos pelo mesmo ator, as imagens ficam “truncados”.

CONSIDERO “O FANTASMA DO LIXO” o curta mais maduro e elaborado de Alexander. O vídeo realiza um debate sobre o lixo, mostrando a convivência de duas garotas, Ludmila e Nicole, que ao chegar de uma festa jogam papéis no chão e convivem em uma grande bagunça em casa. Ao faltar luz o fantasma se apresenta para dar um “puxão de orelha” nas duas que em seguida mudam o comportamento.

Os três vídeos foram filmados por Alexia Barreto, todos possuem boas imagens, mas em “O Fantasma do Lixo”, existe uma composição diferenciada entres o três, com ótimos movimentos de câmera e uma iluminação (para os equipamentos que a equipe dispõe) bem elaborada. A sonoplastia acerta quando utiliza, em alguns momentos, a mescla entre o silêncio e som ambiente. A trilha é boa e foi executada nos momentos corretos, criando um ambiente de “suspense” no filme. Os cortes de imagem não tiveram grandes desafios, a edição é simples e clássica, mas cumpre o papel. O roteiro é bem feito, intensificando os diálogos e construindo uma história de quatro minutos bem construída. A interpretação cênica dos três artistas (Alana Gondin, Lorena Pinheiro e Alexander) ficou ótima e natural, porém a impostação da voz do “fantasma” poderia ser diferenciada, com mais seriedade e em um tom mais grave.

Uma sequência do filme que comprova as qualidades do diretor é a cena realizada após o desaparecimento do fantasma. Alexander acerta em vários pontos, a trilha começa baixa e vai ganhando fôlego ao decorrer da movimentação de câmera, as imagem são captadas de um bom ângulo(altura do chão), a edição reduz em fração de segundos o tempo dos movimentos, deixando-os mais lentos e realçados, os curtos diálogos funcionam como  informativos de consciência ambiental.

Com alguns erros, naturais pela pouca experiência e muitos acertos, os três curtas apresentados ao festival nacional de 5 minutos por Alexander Barreto, se concretizam com uma amostra positiva do talento do jovem cineasta que tem potencial para realizar trabalhados mais maturados e alçar novas linhas narrativas. Sem dúvidas, fico livre para afirmar: É um excelente começo.

 

Pedro Moraes

O curta Véi Lô e as velas do cruzeiro… de Flavia Vasconcelos e  Pedro Moraes, foi gravado em abril de 2009, na Fazenda Periperi, localizada em Matina (aproximadamente 900 km de Salvador), na Semana Santa, período que os mortos são homenageados. O personagem principal é um senhor de 88 anos, o Véi Lô, que, em uma conversa com sua neta Camila, fala sobre costumes e o ritual de acender velas para os parentes mortos no cruzeiro do cemitério da fazenda.

Durante a conversa – o fio condutor do enredo – é possível observar o comportamento dos antigos moradores do sertão baiano, representados por Véi Lô, no sotaque, na característica física, na vestimenta, no uso do cigarro de palha e o processo artesanal de fazê-lo, evidenciando a ligação íntima com a terra, já que é dela que se tira a palha do milho, matéria prima do cigarro.

Outro tema que valoriza a memória e os costumes do sertanejo baiano é o ritual, feito todos os anos, no período da Semana Santa, por Véi Lô e os seus vizinhos e que é mostrado durante a conversa entre o personagem principal e sua neta. Durante a noite, todos se encontram no cemitério da fazenda e, aos pés do cruzeiro, acendem velas e rezam para os parentes e amigos mortos. A beleza está na devoção e respeito aos mortos, tradicionalmente conservados pelos moradores e na estética das imagens, provocada pelas chamas das velas, que juntas, iluminam o nosso personagem.

Véi Lô e as velas do cruzeiro… é um curta, de gênero documental, que registra a personalidade simples e quase ingênua, porém rica em detalhes, de um senhor sertanejo e a valorização dos seus costumes, que não sofreram interferências do mundo urbano e da modernidade.

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Em Parceria com a jornalista Flávia Vasconcelos, estou finalizando o curta “Véi Lô e as Velas do Cruzeiro”. O vídeo mostra a relação do “Véi Lô” com sua neta,  Camila, que participa de um diálogo envolvente com o avô revelando antigos costumes.

Em breve você vai acompanhar aqui e no blog http://curtaolhodeboi.wordpress.com maiores informações sobre o dia a dia do trabalho realizado por  Diego Lisboa e equipe no curta metragem “Olho de Boi”.

pagadordepromessasO cineasta Anselmo Duarte, diretor do clássico nacional “o pagador de promessas” está internado na UTI do Hospital Universitário da USP. Duarte, de 89 anos, ingressou no hospital na sexta com uma anemia provocada por perca sanguínea na urina (causa ainda desconhecida) e sofreu um infarto do miocárdio, hoje, agravando ainda mais seu quadro de saúde. De acordo com a equipe médica, o cineasta deverá ser transferido para o INCOR.

O Pagador de Promessas ganhou a Palma de Ouro em Cannes (1962) e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O mestre do cinema de terror brasileiro, José Mojica Marins, está de volta após o aclamado filme a Encarnação do Demônio. Desta vez o diretor e ator, conhecido como Zé do Caixão, vai participar da continuação da série Corpo Estranho de Lourenço Mutarelli, dividida em 20 capítulos, cada um  de 5 a 7 minutos. Os interessados podem acompanhar a história no site: http://www.teatroparaalguem.com.br