Maria Auxiliadora dos Santos, conhecida como Cilinha, dedicou sua vida para ajudar o próximo, se tornando uma referência da ação social em Lapão (BA)

 

Por Pedro Moraes

 

Percebemos como foi importante a existência de alguém, pelo nível de emoção demonstrada nos momentos em que essa pessoa é lembrada. Ao falar da história da paraibana Maria Auxiliadora dos Santos, conhecida carinhosamente como Cilinha, uma explosão de sentimentos aflora, com depoimentos recheados pelos mais diversos sorrisos, saudades, lições de vida e muita comoção sobre uma guerreira que esteve entre nós para servir.

Filha de Antonio Dias Ramos e Maria das Dores Dias Ramos, Cilinha, nasceu em Remígio, em 27 de março de 1956. Na sua terra natal a situação estava difícil, as fortes secas e escassez de recursos fizeram com que ela fosse para Lapão com apenas dois anos, ao lado dos pais e os irmãos Lourival, Margarida, Luís, Zélia e Marisé. Na nova cidade, a esperança de dias melhores foi renovada e logo a família aumentou com o nascimento de Irenaldo e Marileide. “Cilinha era uma criança bem magrinha e impulsiva, mas desde cedo puxou aos pais e mesmo bem novinha, já gostava de agradar as crianças que ela conhecia”, se recorda Marileide.

Apaixonada pela nova terra, porém sem perder suas raízes, se considerava uma “paraibaiana”, (mistura de paraibana com baiana) e com muito esforço estudou até a quinta série conciliando o estudo com os trabalhos de casa e os da roça em Queimada Nova, povoado de Irecê. Com o tempo, conheceu Antônio Batista dos Santos, Totonho. Com o romance, veio o namoro e posteriormente o casamento, virando o braço direito do esposo. “Casamos no dia primeiro de abril de 1972. Inicialmente começamos a morar juntos, na casa dos pais dela e depois casamos. Foram momentos felizes, minha sogra e meu sogro sempre me consideraram bastante e quando saímos da casa deles para a nossa eles reclamaram, queriam que ficássemos. Quando encontrei Cilinha, ganhei uma companheira que se esforçou por toda sua vida para me ajudar, não conheço uma pessoa com mais disposição e ânimo para auxiliar o outro. Tenho um açougue e ela nunca me disse hoje você vai só, a disposição era fora do normal. Acordava de madrugada, desossava os bois, tratava os fatos e permanecia com a mesma energia. Podia está sentindo qualquer coisa, mas quando falava em ajudar alguém ou trabalhar, Cilinha enfrentava qualquer dor e mostrava que não existia tempo ruim, quando se tinha vontade,” se recorda Antônio.

O casal teve quatro filhos, Clesciane, Clebson, Clenildo e Anaclécio, que recordam  de uma mãe que sabia reclamar e acolher na hora certa. “Ela tinha um carisma enorme com as pessoas, posso dizer com toda certeza que tive uma mãe excelente, pois ao mesmo tempo em que ela passava a mão na cabeça dos filhos ela sabia cobrar atitudes e posicionamentos. Mãe chegava junto e nos ensinou muitas coisas”.  Disse Anaclécio. Concordando com o irmão, Clesciane comenta que a mãe ensinou duas coisas fundamentais: a importância da união entre os familiares e a força de vontade para ajudar o próximo. “Conviver com ela, me influenciou a fazer o bem e estar sempre próxima a minha família”.

Em nome da Ação social

Além de ajudar o marido no açougue, era feirante, e viajava para as cidades da região de Irecê com o objetivo de vender carne nos balcões das feiras. A amiga Maria Alves se recorda que na época, Cilinha separava vários pedaços da mercadoria para fazer doações aos mais necessitados. “Na feira, eu vendia tempero do lado dela e percebia que nunca saia uma pessoa que precisasse de ajuda sem um pedacinho de carne enrolado, ela fazia o bem, mas não gostava de aparecer, sempre ajudava com muito sigilo, por isso, considero-a uma pessoa especial”.

Mesmo com quatro filhos jovens, Cilinha se comoveu com a história da garota Ilca Nascimento dos Santos, que com apenas 12 anos, morava sozinha. A mãe verdadeira deu prioridade a acompanhar o esposo e foi viver na roça com o marido deixando duas filhas sozinhas. A irmã da pré-adolescente foi para Brasília, e a jovem garota, a cada dia se sentia mais triste e solitária. Conhecendo sua história, Cilinha não hesitou a convidar a garota para morar com ela. Muito emocionada, Ilca conta: “ela foi uma peça fundamental em minha vida, tenho muito orgulho em ter tido nela uma segunda mãe. No momento mais difícil da minha vida, onde me sentia só e triste,  ela me ofereceu de bom coração para morar com ela. Mãe Cilinha não me conhecia, não sabia de minha índole, mas mesmo assim, me acolheu como se fosse sua filha. Ficava surpresa a cada dia com sua dedicação, seu sorriso, e todo amor dedicado a mim. Nunca senti diferenças,  o que  tinha para um, tinha para outro, tudo que os filhos dela tinham, eu também recebia, era como se tivéssemos o mesmo sangue. Na ausência da minha mãe, o seu carinho completou meu coração e  me ensinou a perdoar, a ir na igreja, conhecer os bairros carentes e apoiar os mais necessitados”.

Mesmo tentando não demonstrar, o trabalho social que ela desenvolvia, logo começou a chamar a atenção. Foi quando o até então pároco da cidade, Padre Lúcio Barboza,  convidou a guerreira para somar nos grupos de ação social da Igreja Católica de Lapão. Com isso, ela participou voluntariamente da Pastoral da Criança, Promoção Humana e os grupos Galileu e Liturgia.  “Ela me incentivava a participar dos projetos” se recorda a amiga, Maria Alves. “As vezes falhava, estava sem disposição e não ia, quando isso acontecia era certo, Cilinha batia em minha casa e dizia: Coloca uma roupa, vai tomar banho porque você vai, existem muitas pessoas que hoje dependem de você. Assim, não sabia dizer não, e ao lado dela e da colega Maria Paiva percorríamos a cidade e povoados em busca de pessoas que estivessem necessitando de ajuda. Não tinha como ficar triste perto dela, porque ela era um exemplo, qualquer problema que ela tinha, ela deixava para trás e vivia o presente com um sorriso estampado no rosto. Quando ela ajudava alguém era como se seu espírito se renovasse”.

Com os grupos de evangelização e de ação social da Igreja, a guerreira da ação social fazia diversas campanhas de arrecadação e encaminhava mantimentos para os mais necessitados. Incontáveis famílias receberam de alguma forma seu auxílio, se eternizando no dia a dia, por fazer o bem. “Ela tomava a situação para ela, enfrentava o problema e metia a cara, como se toda a responsabilidade fosse dela”, diz a irmã Marileide.

No bairro Ida Cardozo, a amiga Maria Alves presenciou uma de suas ações que ficou registrada na sua memória. “Tinha uns gêmeos chamados Marcílio e Marcelo, ela os encontrou e comentou comigo: achei algo doloroso, a mãe abandou os filhos e quem toma conta é uma senhora doente. Chegamos lá, tinha duas crianças pequenas, em condições sub-humanas,  logo um deles nos pediu um pão e Cilinha começou a chorar . Ela comprou o que eles tinham pedido e levou o caso na Promoção Humana. O grupo disse que ia fazer uma visita e em alguns dias iria arrecadar os recursos para ajudar as crianças. Mas Cilinha não aguentava ver gente precisando, e ela questionava se está precisando hoje, como vai poder ficar esperando? Então ela saiu de porta em porta pedindo ajuda, pegou do dinheiro dela comprou umas telhas para consertar a casa dos meninos e foi levar os mantimentos, depois de um tempo a Promoção Humana fez uma campanha para fazer mais um cômodo na casa deles, mas Cilinha acompanhou esses garotos até ficarem grandes”.

 

Dia de São João Bastita

 

A saúde da guerreira começou a dar sinais de fragilidade. Ao participar de um cortejo fúnebre,  passou mal subindo a ladeira que dá acesso ao cemitério municipal, foi então que procurou um cardiologista para realizar uns exames. A notícia não foi boa, Cilinha tinha um escape em uma das válvulas do coração e necessitava passar por um procedimento cirúrgico.

Muito religiosa, Cilinha apostou na fé e não parou diante da enfermidade, tentando por diversas vezes continuar as obras sociais nos bairros. “Mesmo doente, ela andava pedindo coisas para os pobres e ocupava grande parte do tempo ajudando o outro. Nunca estava satisfeita pelo que estava fazendo, então sempre tentou cada vez mais fazer o bem e caminhar em busca da resolução dos problemas do outro. Isso ajudava a enfrentar a doença, mas muitas vezes não dava, mesmo querendo ir, percebia que ficava cansada e as vezes passava mal”, lembra a irmã Marileide.

Algumas amigas de Cilinha contam que a brincalhona colega sempre dizia que gostaria que sua morte acontecesse no mesmo dia da festa São João Batista, porque a cidade estaria em festa. Coincidência ou não, ao chegar no dia do padroeiro da cidade, em 23 de julho de 2009, seu quadro de saúde se agravou e após sofrer um enfarte, Cilinha foi levada ao hospital mas não resistiu, falecendo a caminho. “No dia que faleceu, mãe me disse: vá para missa em homenagem a São João Batista, eu não vou poder ir, mas você vai. Quando fui almoçar, ela disse que não estava passando bem e iria ao médico mais tarde. Mesmo não muito bem, mãe voltou a pedir para que fosse na procissão e na missa”, conta Clesciane.

Maria Alves recorda que estava na procissão quando escutou a notícia e mesmo após ter superado a morte da amiga, diz não esquecê-la por um instante. “Foi uma morte rápida e inesperada, pois mesmo debilitada não acreditávamos que isso fosse acontecer, Cilinha sempre se mostrou uma rocha. Senti muito com sua morte, éramos carne e unha. Mesmo após seu falecimento, nós da Promoção Humana nunca falamos que ela faleceu, porque toda vez que temos reuniões, sentimos a presença dela entre nós. Minha amiga e irmã, deixou uma história muito bela, que vai ficar para sempre na memória dos lapoenses”, conclui.

Sensibilizado com a história, o Prefeito de Lapão Hermenilson Carvalho homenageou Cilinha, nomeando o novo centro de ação social com o seu nome. O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), vai oferecer orientação e acompanhamento psicossocial e jurídico  para pessoas em situação de ameaça ou violação de seus direitos por ocorrência de abandono, violência física, psicológica ou sexual. A irmã da homenageada, Zélia,  diz que a família ficou lisonjeada com o merecido tributo e afirmou: “Cilinha era uma mulher de boa índole, uma ótima filha, mãe e avó. Me recordo diariamente da minha irmã como uma mulher maravilhosa que por onde passou deixou sua marca fazendo caridade não só materialmente, mas com orações. Agora que o mestre Jesus a chamou para fazer a grande viagem, ela vai continuar a fazer o bem espiritualmente e será lembrada por todos com muita saudade”, conclui a irmã.

 

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Daniel, o Futuka: Com a máscara, esqueço problemas e encarno a missão de fazer sorrir

Por Pedro Moraes

Munido de calças largas, maquiagem, fantasias e sapatos largos, lá vem o colorido e engraçado Palhaço Futuka, um soldado da alegria, que em cada cidade que visita luta para levar o sorriso e acender o brilho nos olhos das crianças.  Espantando a tristeza, o personagem interpretado pelo artista circense Daniel Henrique é aclamado pela molecada e garante, ao lado de outros artistas, casa lotada para o Circo Húngaro, que já percorreu diversos estados como a Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Minas Gerais, Espírito Santo e Ceará.

O artista de 21 anos nasceu em Maceió-AL e adquiriu ao longo da vida sensibilidade e habilidade para desempenhar diversas funções. O treinamento começou aos cinco anos, com o número mundialmente conhecido como “atirar facas”. Em seguida, aprendeu malabares e, aos 16 anos, começou a interpretar o palhaço Maluquinho, que se transformou posteriormente em Futuka. Daniel explica que “no circo, todo mundo acaba fazendo várias funções, cada um faz um pouco de tudo”. Ele mesmo, faz divulgação no carro de som, ajuda na portaria,  dança, faz malabares e  dublagens, porém, o que mais gosta é de interpretar o palhaço Futuka: “Amo a vida do circo, nunca pensei em largar, a identificação é total”, confessa.

Daniel Henrique nasceu no circo e herdou a tradição de uma família circense, iniciada há muitos anos pelo bisavô João, cigano de origem húngara, e a bisavó, que era turca. Atualmente, a família está espalhada no Brasil, fazendo espetáculos em 12 circos.

Atualmente viver de circo é possível’

Daniel: Não acreditam que sou palhaço

– Sou da quarta geração e percebo que atualmente viver de circo é possível. Antigamente, era muito difícil, tenho primos que não aguentaram e saíram dessa vida para fazer coisas tradicionais como medicina e direito. Antes, os espetáculos não eram valorizados,hoje temos apoio da Funart, que abre vários editais de fomento à cultura circense  e contamos com um público maravilhoso que valoriza nossa arte. Os circos já se encontram em outro patamar –  ele argumenta.

O Circo Húngaro tem um ano e meio de fundado. Antes, os artistas trabalhavam em outro circo da família, o Delibano. Porém, com o crescimento da família, a tendência natural foi expandir.

– Conseguimos trocar uma caminhonete por uma lona, no começo, não tínhamos iluminação e transporte. Me lembro que no primeiro dia de espetáculo não tínhamos dinheiro,  estávamos zerados e para completar o dia da estreia faltou energia; no outro, a cidade sofreu com chuva forte; e, no domingo, deu pouca gente. Porém, não nos abalamos. E, graças a Deus, na segunda-feira, lotou. Foi ali que nossa história pôde ser continuada. Hoje, temos um trabalho mais profissional, antes de ir para uma cidade analisamos como está o comércio, a agricultura, o clima, se o local teve festas recentemente e só assim providenciamos as documentações necessárias para nos instalar e começar a produção – conta.

Casado com a trapezista Tuanny, o palhaço mora com os pais e irmãos em casas sobre rodas, conhecidas como “moto-home”. A vida nômade considerada charmosa para alguns e  louca para outros, não traz grande problemas e com o suporte virtual da internet eles conseguem construir e cultivar relações fora do circo.

– Amigos mesmo que criamos é mais da família do circo. São 28 pessoas que nos acompanha para todos os locais. Mas, mesmo não criando raízes nas cidades, conseguimos cultivar amizades sólidas, conhecemos alguém nas cidades e temos de 10 a 15 dias de contato. Às vezes é pouco, porém mantemos o relacionamento via internet ou telefone.  Tenho quatro perfis lotados no Orkut, uso o Twitter e meu MSN tem aproximadamente 6 mil contatos e toda vez que voltamos para uma cidade sempre acontece um reencontro – diz Daniel.

Com a máscara esqueço meus problemas’

Com as crianças, interação total

Daniel é muito mais quieto que o Futuka. Em uma rápida conversa dá para perceber que são duas identidades opostas, com poucas semelhanças. “Quando falo que sou palhaço quase ninguém acredita, até porque muitas pessoas não entendem que lá é um personagem, algo que não sou. Apesar de não conseguir ser a mesma coisa do palco fora dele, quando boto a roupa, a maquiagem e entro no picadeiro tudo muda. Não sei o que acontece, é instantâneo faço palhaçada na mesma hora como se estivesse fazendo isso sem parar há mil anos. Com a máscara esqueço meus problemas, broto um sorriso e encarno a missão de fazer o outro sorrir”.

Aparentemente, não é só o artista que esquece os problemas. Olhando para esse lugar mágico chamado picadeiro, a plateia eufórica incorpora a fantasia das cores onde as palmas e gargalhadas imperam. Mas, o que acontece quando as cortinas se fecham? As brincadeiras adormecem na realidade e os personagens lavam os rostos, voltando a ser pessoas normais, com lágrimas, fragilidades e defeitos como qualquer outra pessoa.

É por isso que ele  não gosta de falar que é palhaço. Teme que as pessoas – e principalmente as crianças – se desencantem. Como já aconteceu, aliás. “Teve uma mãe que veio ao circo, para que o filho me conhecesse pessoalmente e quando ele me viu, começou a chorar dizendo que não era o Futuka, isso me comoveu bastante, coloquei o chapéu fiz umas brincadeiras,  mesmo assim ele não se convenceu muito. As crianças  têm uma imaginação fantástica, adoro a forma que elas me olham e interagem comigo. Digo que moro na lua e elas inocentemente me tocam achando que sou de mentira. É mágico, não quero estragar isso” – encerra o artista.

Texto: Pedro Moraes  | Fotos: Armstrong Ferreira

Postado em: 16/06/2010 (revisado: 03/02/17)

 

9ab3fd6e-cee3-4e66-936f-b5ed87fafd1eRespeitado pela comunidade e por integrantes mais velhos da religião, o jovem Dijalma dos Santos, de 19 anos, ou simplesmente Dijalma de Ogum, líder do terreiro Ylê Axé Orixalá no bairro Ida Cardoso em Lapão, é reconhecido pelo programa do governo federal “Terreiros do Brasil” como o pai de santo mais jovem da Bahia. Dijalma que herdou os conhecimentos da avó dona Rosália, que tinha um terreiro em Lagoa do Gaudêncio, comunidade remanescente de quilombola, conheceu a religião ainda pequeno e logo sentiu a vocação para o candomblé. “Comecei zelar de santo (cuidar das imagens e do ambiente) com apenas sete anos, observava ela fazendo as obrigações dela no terreiro e sempre tive vontade. Três anos depois, com dez anos, minha avó parou e comecei a herdar as coisas dela,  meu tio jogou os búzios e os orixás me apontaram como o seu sucessor. Fiquei alguns meses me preparando e me tornei pai de santo. A primeira vez que incorporei foi muito forte, senti uma força que não sei de onde veio. Certa vez tentei parar, mas a força dos orixás foram maiores que a minha e sigo até hoje.” lembra Dijalma.

 

whatsapp-image-2017-01-30-at-16-32-56O terreiro é uma casa de Oxalá, com predominância da cor branca, com imagens, incensos e velas. O local tem as portas pintadas de azul, uma referência a Ogum, orixá guia de Dijalma. O local é frequentado por diversas faixas etárias, não e difícil ver crianças e adultos dividindo o mesmo local respeitando Dijalma como líder e conselheiro espiritual. “A relação é de pai. Muitos me chamam de padrinho. Temos filhos de santo nessa casa que vai dos 4 a 50 anos. Crianças ou adultos todos me respeitam. Muitas pessoas nos procuram em busca da paz, às vezes por falta de saúde e trabalho ou até desavenças sentimentais. Elas chegam para pedir conselhos e serem ouvidas, converso  muito com elas e fazemos orações. Algumas vezes indico uns banhos, com plantas da mata, morada de Oxossi. Os banhos com as folhas de Ossanha, trazem paz, força e afasta os espíritos ruins que estão por perto atrapalhando alguma coisa, muitos deles com apenas um banho já se sentem melhor.” Revela o pai de santo .

Social – O terreiro de Dijalma realiza frequentemente aulas com pessoas interessadas sobre a cultura negra, falando de ensinamentos do candomblé com as histórias dos orixás e os cânticos ajudando a preservar e imortalizar a cultura afrodescendente.  “Também ajudamos pessoas a se libertarem de vícios e de coisas ruins desse mundo, aqui mesmo veio um rapaz alcoólatra, ele com a mulher bebiam bastante deixando a família desestruturada. Ele veio aqui, conversamos muito e trabalhamos para resolver isso. Agora ele está aqui conosco e largou o vicio”.

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Preconceito – Apesar ser uma religião secular, o candomblé, assim como outras manifestações da cultura negra ainda recebem represarias e preconceitos por diversas pessoas.  Não seria diferente por aqui. Apesar de afirmar não se incomodar, o pai de santo Dijalma diz que até viatura policial esteve no terreiro. “Tinha uma senhora que dizia que fazíamos coisas para o diabo, chamou a polícia uma vez, mas ela nunca conseguiu fazer nada demais conosco. Existe muito preconceito, mas em nove anos de trabalho, percebo que já mudou muita coisa, não tenho vergonha de mostrar as pessoas minha religião que é bela e prega o bem. Cada um segue o caminho que Deus abriu para seguir, por isso respeito todos que seguem outras religiões”.

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Contato: 074 9.9978-7743 /074 9.9973-4902

A Câmara dos Deputados instalou nesta quarta-feira (26/05), a Comissão Especial encarregada de emitir parecer sobre a Proposta de Emenda Constitucional 386/09, a PEC dos Jornalistas. O prazo para emendas à PEC está aberto a partir desta quinta-feira. A expectativa é de que o parecer sobre a proposta seja apresentado no máximo até o dia 24 de junho.

A PEC 386/09, de autoria do deputado Paulo Pimenta (PT/RS), teve sua admissibilidade aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara em novembro de 2009. Desde este período a Frente Parlamentar em Defesa do Diploma, integrada por deputados e senadores de diversas siglas, esforça-se para acelerar a tramitação da matéria. No início de maio, em contato com o autor da PEC e com o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB/SP), comprometeu-se em acelerar a instalação da Comissão Especial.

Na reunião de instalação ocorrida na tarde desta quarta-feira, no plenário 14 da Câmara, foram definidos o presidente e os três vices da Comissão Especial, deputados Vic Pires (DEM/PA), Rebecca Garcia (PP/AM), Francisco Praciano (PT/AM) e Coubert Martins (PMDB/BA), respectivamente, como também o relator da matéria, o deputado Hugo Leal (PSC/RJ). Embora o relator tenha o prazo de até 40 sessões para emitir parecer sobre a matéria, um acordo de lideranças estabeleceu o prazo de 10 sessões para que isto ocorra. O relator pretende fazê-lo até o dia 24 de junho.

Com o prazo de emendas à PEC já aberto, cada parlamentar que desejar apresentar alguma proposta de alteração no texto original precisará do apoio de pelo menos 171 deputados. A Comissão Especial tem nova reunião agendada para o dia 1º de junho (próxima terça-feira), para traçar um plano de trabalho e aprovar requerimentos de audiências públicas sobre a exigência do diploma para o exercício profissional do Jornalismo.

FENAJ

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Por Pedro Moraes

Um inseto asiático, já radicado no Brasil, encontrou no clima quente e seco do semiárido baiano um ambiente propicio para sua reprodução. A Bemisia Argentifolii, conhecida popularmente como mosca branca, tem cor pálida, mede aproximadamente 2 mm e produz em condições favoráveis de 200 a 400 ovos por ciclo de vida que dura aproximadamente 19 dias. Por ter uma disseminação rápida, a superpopulação deste inseto têm assustado os moradores e agricultores da microrregião de Irecê. É o caso da estudante Ana Paula, 21, que afirma nunca tinha visto o inseto e ficou preocupada com a situação. “Ouvia falar nos jornais sobre ataques de mosca branca nas plantações, mas nunca tinha visto. Agora encontro elas dentro de casa, no quintal e em todos os lugares”. Especialistas na área esclarecem que apesar da desagradável presença, elas não geram riscos para a saúde humana, porém é uma vilã de peso para as plantações.

De acordo com o engenheiro agrônomo da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), Eduardo Dourado, a principal prejudicada com os malefícios da mosca branca, é um tipo de planta chamada cucurbitácea que engloba alguns frutos conhecidos em nossa culinária, como abóbora, melancia, melão e pepino. “Como dano direto, ela suga a seiva da planta, que seria um tipo de sangue do vegetal onde passa os nutrientes, assim, o vegetal fica debilitado. No tomate, por exemplo, a mosca injeta uma toxina que deixa o fruto esponjoso, semelhante a um isopor. Ela também coloca uma excreção preta que deprecia o valor comercial do produto”, explica Eduardo.

Os malefícios, no entanto, não param por ai. Eduardo Dourado, ainda afirma que o inseto traz danos indiretos para as lavouras, porque ele é um vetor de viroses que atinge outras culturas agrícolas, é o caso do vírus mosaico dourado, que chega a diminuir em 80% a produção do feijão e soja. No caso do tomate, um dos maiores prejudicados com o hospedeiro, a mosca branca deixa o geminivirus, que traz de 40% a 70% de percas no plantio. “Quando os vírus atacam as plantas quando estão pequenas, elas deixam de produzir, porque o crescimento é paralisado, quando atacam na planta adulta a produção tem quedas consideráveis”, diz Eduardo.

O engenheiro agrônomo da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB), Joiram Souza Mendes, esclarece que um dos motivos para que o inseto se multiplicasse no município é decorrente de um cultivo inadequado nas lavouras da região. “Os produtores plantam o tomate muito próximo um do outro e isso cria uma sombra, que favorece a multiplicação e dispersão da mosca branca. Presenciamos também o aumento da jardinagem dos parques e praças que auxiliam na multiplicação do inseto.”

Método de combate mais utilizado – A forma tradicional de combate dessa praga do campo é realizada com defensivos agrícolas, conhecido como agrotóxicos, contudo, Joiram Mendes alerta que “o uso incorreto do agrotóxico, pode piorar a situação e tem dificultado a ação dos inimigos naturais da mosca branca como os fungos que se alimentam dos ovos, das ninfas(mosca na fase jovem), da mosca adulta, e do bicho lixeiro”, um inseto predador que ataca uma variedades de pragas responsáveis por destruir as lavouras. Joiram, ainda comenta que as novas gerações da mosca branca estão ficando resistente a grande parte dos agrotóxicos.

Por estes motivos, Eduardo Dourado, afirma que a falta de capacitação dos agricultores e operários que manuseiam os agrotóxicos (aplicadores), também é um problema grave que precisa ser resolvido. “O ideal seria uma produção orgânica sem o uso desses defensivos, mas com a atual tecnologia, esse modelo agrícola não está pronto para produzir em grande escala, fazendo necessário o uso de defensivos. Porém, isso tem que ser feito de forma responsável, utilizando os agrotóxicos corretos para cada tipo de produção e capacitando os aplicadores para que eles utilizem os instrumentos de segurança e manipulem o defensivo corretamente para não contaminar o meio ambiente”, diz o engenheiro agrônomo.

Formas alternativas – Diversos métodos de cultivo podem ajudar no combate a mosca branca. Jairam indica que “as plantações devem ser realizadas com um espaçamento maior, quebrando a arquitetura de plantio. Desta forma, vai penetrar mais vento e sol, combatendo a mosca. Uma outra tática é plantar em época não favoráveis, no meses mais frios, por exemplo , com o clima desfavorável, o inseto ataca, mas não na proporção que tivemos no verão. O produtor também deve investir em espécies tecnicamente melhoradas, resistentes ao vírus propagado pelo inseto e ficar atento também com as ervas daninhas, e retirá-las constantemente, porque são locais que facilitam a reprodução”.

O engenheiro da EBDA, Eduardo Dourado, diz que uma alternativa utilizada em Goiás vem trazendo bons resultados e pode ser utilizada na região. “Eles têm um calendário de cultivo que segue por no máximo seis meses e o produtor não pode fazer um plantio escalonado por mais de 60 dias. Assim eles quebram o ciclo do inseto”.

Os especialistas orientam aos produtores que além dessas dicas de cultivo a eliminação dos resíduos da colheita são fundamentais para controlar a disseminação da praga. Eduardo Dourado explica que “quando acaba o ciclo do plantio muitos dejetos são deixados na lavoura e as ervas daninhas continuam vivas, e como o produtor deixa de realizar o controle químico a tendência é que o ambiente seja propicio para a disseminação do inseto, então aconselho os produtores a eliminar os restos da cultura, queimando assim que o ciclo de plantio finalizar.” Apesar de reconhecer a eficiência da técnica e defender a eliminação dos resíduos da  colheita, Joiram  afirma que não gosta da alternativa de queimar, “embora seja muito eficaz, ela não é ecologicamente correta, depois do cultivo, o produtor pode arar a terra e enterrar, assim ele acaba com a proliferação da mosca branca e ainda melhora o solo”.

“Sou Alfredo José Rosendo/Filho de Modesto e de dona Brisdinha/

Se eu não faço um poema melhor/É porque não frequentei a escolinha”

Por Pedro Moraes

As gotas geladas de uma suave garoa tocam suavemente na terra seca e árida, em um fim de tarde em que o chão quente do semiárido agradece aos céus pela benção de encontrar com sua fonte de energia, exalando assim, o cheiro de terra molhada, sinônimo de prosperidade na vida do sertanejo. O São João, árvore típica da biodiversidade local, abre suas flores, amarelas feito ouro, provando para quem duvidar que a beleza surge no improvável. Em torno deste cenário, que flerta entre o belo e a simplicidade, encontro seu Alfredo Rosendo, um lapoense de expressão forte, alto, de voz firme e corpo esguio, com 89 anos de histórias, causos e lições de vida. Em uma casa antiga, feita com as próprias mãos, “Seu Fredo” como é carinhosamente conhecido, mora em companhia de ilustres convidados: a música e poesia.

O cheiro do café passado na hora abre as portas para uma longa conversa sobre a vida, sonhos e a arte, despertada em 1985, quando seu município de origem, Lapão-BA, tentava se emancipar. Em versos simples, de um homem que nunca foi à escola, Fredo foi de encontro aos velhos coronéis da terra e declamou com garra e coragem a seguinte estrofe:

“Deixa de tanta promessa/ deixa de tanto esperar/ agora chegou a vez/ de Lapão emancipar. Lapão já foi muito atrasado/ só quem viu sabe contar / Só tinha duas escolas, mesmo assim particular/ Hoje, o Lapão já conta, no setor da educação / Com um dos melhores colégios da microrregião.  Lapão tem um povo hospitaleiro / Isso eu não nego / só faz muito fuxico na época da eleição / deixa de tanta promessa/ deixa de tanto esperar/ agora chegou a vez/ de Lapão emancipar”.

De acordo com Alfredo, na época, algumas famílias tradicionais reuniram 500 assinaturas em um manifesto contra a emancipação. “Eles alegavam que a cidade era a ponta da rua do município de Irecê, mas eles tinham interesses pessoais por trás disto, achei que não tava certo, porque Lapão já estava desenvolvida, foi então que tive a vontade de fazer meu primeiro verso e dei uma chicotada neles”.

‘Não tinha como estudar, e chorava’
Frequentar uma sala de aula foi o maior sonho do poeta sertanejo, porém os tempos difíceis da época de criança não deixaram sua aspiração virar realidade. Apesar de não poder ir à escola, sua vontade era maior que a maioria dos obstáculos. Com uma “banda” de toucinho de um porco gordo, doado pelo seu avô, foi para cidades vizinhas vender a mercadoria. Ao todo conseguiu 200 réis, dinheiro suficiente para comprar um livro ensinando a arte do ABC. “Quando meu avô trouxe o livro, só fui dormir quando aprendi a primeira carreira de letra, gravei até o ‘é’, depois fui tocando meus estudos para frente. Em quinze dias, já sabia ler. Meu avô morreu na grande crise de 32, e fomos trabalhar numa roça que só tinha onça e caititu. Lá, passei de inteligente e fiquei conhecido por fazer um cavaquinho com uma faca com apenas 12 anos, ficou tão bom que muitas pessoas quiseram comprar, acabei vendendo para comprar uma roupa bem bonita que fazia tempo que não tinha”.

Apesar do esforço, o garoto promissor ainda não sabia escrever até que a noiva do tio questionou: “Você já sabe fazer seu nome?” triste e envergonhado ele respondeu: “Não”. Foi então que a jovem segurou em sua mão e com um toco de madeira riscou o nome do menino para ele copiar. “Fiquei muito feliz, gravei aquilo e nunca vou me esquecer, saí correndo para mostrar a todos, mas muita gente não acreditou. Meus parentes só acreditaram de verdade quando a moça chegou e confirmou tudo. Sonhava tanto em aprender que quando ia comprar alguma coisa montado no lombo de um jumento, passava por perto da escola, amarrava o animal e ficava ouvindo eles aprenderem e passava a tarde toda. Quando chegava em casa minha mãe questionava você foi no Lapão ou no Japão?”, lembra o poeta.

Infelizmente, a vontade de aprender chocava com a dura realidade e o sonho de frequentar as salas de aula para se tornar “um homem letrado” se tornava cada vez mais distante. “Foi muita vontade, mas fiquei só na vontade. Minha mãe era viúva e tinha seis filhos, ela me dizia: ‘Vamos plantar um algodão se a lagarta não comer compro sua farda, e você vai para escola’, mas foram anos duros, a região passava por uma seca danada, sobrevivíamos com cuscuz de mucunam, que é um caroço vermelho e venenoso, mas colocávamos de molho, quebrava a casca e tirava uma folhazinha que tem dentro e moía. Então, realmente, não tinha como estudar e chorava que as lágrimas desciam. Fiz até um verso que é mais ou menos assim: Na idade de dez para onze anos / sorri pouco porque a coisa era muito feia / só comia um alimento que não era do mato / se fosse em casa alheia”.

“Hoje sei escrever um pouquinho e fazer umas continhas. Não leio cantando como um formado, mas graças a Deus, não sou cego”, ele diz. Mas, nem só de poesia se inspira Alfredo, o poeta sertanejo, que também “toca uns tonzinhos” para se divertir. “Comecei a tocar com 12 anos, na época que fiz o cavaquinho, via meu tio fazendo uns tons e fui aprendendo. Logo as pessoas me chamavam para bater uma sanfona e tocar violão, mas hoje é só para se divertir em casa. Toco umas músicas de igreja, uns sambinhas e uns sucessos de Amado Batista, Waldick Soriano, Vicente Celestino e Alvarenga e Ranchinho”.

Alfredo casou a primeira vez com 16 anos, teve dois filhos e ficou viúvo. Ainda jovem começou a labuta. Após a vida do campo, trabalhou durante 40 anos como barbeiro e marceneiro e conta orgulhoso que todo serviço era feito com prazer. “Gostava quando cortava o cabelo e o cliente exigia o corte e qualidade no serviço. Se fosse fazer um móvel, fazia com todo capricho, escolhia sempre uma madeira boa e buscava a perfeição. Fiz móveis que até hoje nunca descolaram uma placa. Ganhei fama por aqui, o povo comentava: ‘Esse é bom no machado’.”

Apesar de nunca ter lido um livro de poesia, os versos de Alfredo brotam com naturalidade. Com uma linguagem regional, rica em detalhes e lembranças de um povo sofrido e lutador, o poeta sonha em publicar seus versos, já impressos artesanalmente, feito cordel, e distribuído na cidade. Porém, esse almanaque vivo, simples, inocente e sábio, precisa de apoio para imortalizar suas lembranças, seja para falar de um sorriso de uma criança, uma gameleira ou de uma gruta, Alfredo deseja publicar um livro, e contribuir para deixar escrita na história a riqueza e a poesia do homem do campo.

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